Mais que lúdico, político: o desfile da Moschino na MFW
Toda obra de arte é um mix de vários fatores. Talento, técnica, bagagem cultural, intenções, provocações pretendidas ou não, raízes do autor e os costumes de seu tempo. Subversivo ou clássico todo artista imprime parte de sua essência no que faz. E a coleção de inverno de Adrian Appiolaza, para a Moschino, leva a Argentina aos olhares do mundo durante a Semana de Moda de Milão.
Em 30 de janeiro de 2024 a Moschino anunciava seu novo diretor criativo: Adrian Appiolaza. Com passagens em marcas como Alexander McQueen e Louis Vuitton, Adrian apostou na latinidade para coleção de inverno deste ano.

Leveza e flores no inverno
Muitas cores, estampas florais, peças leves e acetinadas, babados, vestidos felizes e quase “primaveris”. Diferente de outros desfiles mais “sóbrios”, com tons mais fechados e invernais, a coleção da Moschino é alegre, estampada e provocativa.

A marca traz muita ludicidade ao desfile com bolsas diferentes e até pouco usuais, em formato de cactos e churros, clássico da culinária argentina, que num olhar desatento pode lembrar uma batata frita. As orelhas de coelhinho coloridas, as penugens e as meias calças amarelo e vermelho trazem um ar mais leve e jovial.

Há também o uso de bolsas e detalhes em crochê em algumas peças. A técnica de tecelagem é muito comum em países latinoamericanos, no interior e entre as mulheres idosas. Cada ponto, que posteriormente formam um tecido inteiriço, é feito separado e manualmente. Em alguns contextos, principalmente de produções massivas e voltadas à demandas turísticas, o preço de cada peça é desvalorizado. A aparição de bolsas em crochê em um desfile de alta costura reforça o prestígio desses itens.

Outro destaque interessante foi a bolsa de porquinho carregada por uma pessoa usando uma blusa estampada com notas de euro e um sapato carregado de retalhos que lembram euros. Com as bordas desfiando, o amontoado de “notas” balança nos pés de quem estava calçando esse item curioso.

Argentina presente
Longe de ser um desfile bobinho ou infantil, Adrian ressalta não apenas suas raízes latinas, como também provoca o conservadorismo de forma clara. A camisa branca e comprida com apenas uma frase, que traduzida diz: “O problema das mentes fechadas é que elas estão sempre com a boca aberta” é um recado dentro e fora dos desfiles.

As recorrentes posturas eugenistas de Donald Trump, sobretudo em relação à América Latina produzem no meio artístico uma postura crítica à política bélica, anti-imigratória e racista de Trump e seus apoiadores. Bad Bunny se destaca internacionalmente nesse sentido e seu sucesso entre o norte global gera atritos culturais interessantes. No lançamento de Debí Tirar Más Fotos, álbum vencedor de três categorias no Grammy Awards em 2026, a capa gerou estranhamento assim como a data de lançamento.
Um álbum profundamente latino lançado no verão abaixo da linha do Equador. Os vestidos leves e as estampas felizes da coleção de Adrian me remete ao renascer da primavera, do frescor do verão na praia. Além da frase, potencialmente emblemática, mais uma estampa chama a atenção: Mafalda e os dizeres ¡¡BASTA!!.

Aqui se respira lucha
Criada pelo cartunista Quino, Mafalda é uma personagem de quadrinhos muito lembrada por sua postura contestadora, revolucionária e sempre disposta a mudar o mundo à sua volta. Com humor refinado, que funciona entre adultos e crianças, sua primeira aparição foi em 1964.
O Brasil vivia os primeiros meses da Ditadura Militar e a Argentina sofreria um golpe do mesmo caráter em 1966. A pressão do povo retrocedeu, por um tempo, o regime e Juan Domingo Perón, importante presidente argentino, ficou no poder mais um tempo após retornar do exílio.
Mafalda, então, surge no contexto das ditaduras militares na América Latina, que marca as décadas de 60 à 80 no continente. Essas décadas também foram marcadas por intervenções estadunidenses na Nicarágua, República Dominicana, Cuba e o marco do neoliberalismo no mundo: o golpe de Pinochet no Chile.
Quando Adrian Appiolaza marca o desfile da Moschino com Mafalda e Eva Perón, ex-primeira dama da Argentina, ele posiciona mais do que sua latinidade, mas o caráter político de sua arte frente aos ataques de Trump à soberania da Venezuela, com o sequestro de Nicolás Maduro e, mais recentemente, com os ataques ao Irã e o extermínio de meninas e mulheres civis.

“Ahora todos quieren ser latinos no, ey, pero les falta sazón” é mais um trecho da obra de Bad Bunny que virou trend. Para além do molho natural, da estética e da nacionalidade, o tempero latinoamericano é a luta, a consciência do local que se ocupa. E como Calle 13 marcou em nós: soy América Latina un pueblo sin piernas, pero que camina.
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Escrito por Geovana Nunes I Editado por Ana Carolina Gomes


