Schiaparelli mostra que tons neutros não precisam ser básicos na PFW
A coleção Schiaparelli Primavera/Verão 2027, intitulada Going Clear, foi apresentada no dia 1º de outubro durante a Paris Fashion Week. Sob a direção criativa de Daniel Roseberry desde 2019, a maison francesa manteve seu icônico surrealismo, mas desta vez em uma abordagem mais minimalista, levando elementos extravagantes da marca para o cotidiano.
A coleção prêt-à-porter/ready-to-wear, ou pronta para vestir em bom português, trouxe 54 looks diferentes com vestidos, macacões e conjuntos. Roseberry prova que mesmo utilizando os tons neutros dá para brincar na modelagem e nos tecidos das roupas para criar um look nada básico. Em vez de criar uma coleção baseada nas tendências passageiras, o estilista buscou a “essência” da marca, desmontando alguns de seus códigos visuais mais conhecidos para serem utilizados em peças separadas.

Os vestidos, decotes e silhuetas que são normalmente associados à alta-costura foram transformados em conjuntos de blusas, saias e calças, criando um guarda-roupa modular. A inspiração também veio do estilo sportswear americano e das raízes texanas do diretor criativo, aproximando a tradição francesa da maison de montar o look de uma forma mais personalizada.
Em sua carta disponível no site da maison, Daniel Roseberry declara que “Misture, combine, faça do seu jeito. Para tornar essas escolhas mais fáceis e fluidas, limitamos a paleta de cores ao preto Schiap, bege e manteiga, com alguns toques de cor.”
A proposta é que as peças possam ser misturadas entre si, dando ao consumidor uma maior liberdade para construir seus próprios looks. É uma mudança importante para a marca, já que sua imagem frequentemente é associada aos tapetes vermelhos, com produções extremamente elaboradas e extravagantes.

A escolha funciona como uma base para que os detalhes sejam os protagonistas de cada peça. Barras onduladas, decotes assimétricos e acabamentos diferentes aparecem nas peças. Os babados feitos de couro e linho fazem referência às cortinas que decoravam o antigo ateliê de Elsa Schiaparelli na Place Vendôme.
Um dos principais símbolos da coleção é a Schiap jacket, reinterpretada em oito versões diferentes. A peça recebe bordados de vegetais e aparece em cores retiradas dos arquivos da maison, como azul, verde-musgo e rosa salmão.

Os bordados também aparecem em camisas transparentes, acompanhados por motivos de penas. A técnica, normalmente associada aos materiais mais luxuosos da alta-costura, é aplicada sobre tecidos leves e transparentes, reforçando a tentativa de Roseberry de transportar o vocabulário da alta-costura para o ready-to-wear.
O tricô ocupa um lugar importante na coleção. Entre os materiais utilizados está uma malha transparente de viscose inspirada em um tecido desenvolvido originalmente por Elsa Schiaparelli. A tradicional broderie anglaise, tipo de bordado combinado com recortes e pequenos furos, deixa o universo da alta-costura e aparece adaptada para a ideia do cotidiano. A técnica ajuda a construir uma coleção que trabalha com transparência e textura sem depender exclusivamente de peças estruturadas ou de grandes volumes.

A transparência também surge como um dos recursos responsáveis por manter a sensualidade da coleção mesmo diante da proposta mais prática. Entre as peças mais marcantes está também o clássico vestido preto, escolhido para ser a peça de abertura do desfile.
Se as roupas foram feitas de forma mais minimalista, os acessórios seguem a assinatura extravagante da marca. As bolsas mantém os modelos mais tradicionais mas recebem detalhes surrealistas icônicos, e entre eles, uma boca de latão que também funciona como alça. Nos sapatos, vemos a presença de modelos mais baixos e usáveis no dia a dia, incluindo babouches, botas de tricô e mules.

Os acessórios seguem a mesma lógica lúdica e extravagante. Cavalos, golfinhos e cachorros aparecem como uma espécie de zoológico, enquanto os símbolos recorrentes da Schiaparelli, como lábios e fechaduras, são utilizados de maneira menos óbvia nas peças.
A coleção Schiaparelli Primavera/Verão 2027 representa uma mudança de ritmo para Daniel Roseberry. A marca continua reconhecível com seus acessórios e detalhes dourados e nos elementos surrealistas, mesmo deixando a extravagância um pouco de lado.
O próprio conceito de Going Clear está ligado a esse movimento. Roseberry descreve o título da coleção como uma tentativa de se afastar do ruído da indústria da moda: ” Para mim, significa afastar-se da promessa de status e aprovação da indústria da moda — significa deixar para trás as fofocas e as redes sociais.”
O resultado é uma coleção visualmente mais limpa, mas que continua carregando elementos capazes de identificar a maison à primeira vista.
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Escrito por Karen Teixeira I Editado por Ana Carolina Gomes


