Quando a moda deixa de ser apenas roupa?
Ao transformar plasma, física e alta-costura em uma mesma linguagem, Iris van Herpen apresenta uma coleção que convida o público a repensar os limites entre moda, arte e ciência.

Foto/reprodução: Iris Van Herpen
No início deste mês, a Semana de Moda de Alta Costura de Paris voltou a reunir algumas das maiores casas da moda mundial. Entre tantas coleções apresentadas, uma delas chamou a atenção por transformar a passarela em um verdadeiro laboratório, aproximando moda, física e arte em uma mesma linguagem. Iris Van Herpen já trabalhou com sólido, liquido, matéria viva, mas essa foi a primeira vez que incorporou um fenômeno físico como elemento central de uma peça de alta-costura.
Iris é uma estilista holandesa conhecida por desenvolver suas coleções em colaboração com pesquisadores, físicos, biólogos e engenheiros, aproximando a moda da investigação científica. Ao longo de sua carreira, ficou conhecida pelos seus trabalhos que trazem propostas diferentes para as passarelas. Robótica, biologia, algas vivas que brilham no corpo, e desta vez ela foi além, a estilista nos apresentou o quarto estado da matéria: o plasma.
Sobre a coleção de Iris Van Herpen
A coleção se chama Sonic Star Quakes. “Star Quake” é o nome que os cientistas classificam um terremoto que acontece dentro de uma estrela – mais especificamente em um tipo de estrela hiper magnética chamada “Magnetar”. Essas estrelas sofrem rupturas em sua crosta, produzindo oscilações estudadas pela asterossismologia, área da física que investiga as vibrações estelares para compreender sua estrutura interna.
O primeiro vestido apresentado era feito de tule, com esferas sopradas a mão. Foram cerca de 30 mil esferas, com tubos de vidro saindo do ombro da modelo, preenchidos com plasma de verdade. Esse plasma reage ao campo magnético do corpo de quem veste, ou seja, não é só uma peça decorativa, ela lê a energia de quem está dentro dela.




Foto/reprodução: Iris Van Herpen
Outra peça que chamou a atenção foi o “Fractual Universe”, um vestido curto feito em um material chamado PMMA, um tipo de acrílico. Antes do desfile, ele foi colocado dentro de um acelerador de partículas, e de uma câmara criogênica a cem graus negativos. Quando Iris abriu essa câmara, o material tinha sido tomado por um padrão chamado “Figura de Lichtenberg”: um padrão ramificado criado pela passagem de uma descarga elétrica. Sua geometria aparece em raízes de árvores, em deltas de rios e nos vasos sanguíneos dentro do nosso próprio corpo.
Moda e arte
A fronteira entre moda e arte já vem sendo debatida há algum tempo entre estilistas e curadores. O mercado da moda foi construído sobre a ideia de consumo. Mesmo a alta-costura, inacessível para quase toda a população, ainda existe para vestir alguém. Iris van Herpen rompe parcialmente com essa lógica. Suas coleções são concebidas como experiências, objetos de pesquisa e manifestações artísticas antes de serem produtos. O vestido deixa de responder apenas à pergunta “quem vai usar?” e passa a responder “o que essa obra quer provocar?”
Ao retirar determinadas criações da lógica de compra e venda, Iris questiona um dos pilares da própria indústria da moda: a ideia de que toda criação precisa se tornar mercadoria. Em vez de transformar seus vestidos em objetos de desejo, ela os transforma em objetos de contemplação. Isso é arte conceitual pura.
Durante séculos, a moda foi entendida principalmente como um objeto de uso. A roupa precisava vestir, proteger ou representar determinado status social. A coleção de Iris van Herpen rompe com essa expectativa ao aproximar a alta-costura da arte conceitual, em que a ideia proposta pela obra se torna tão importante quanto sua forma. Nesse contexto, o vestido deixa de existir apenas para ser usado e passa a existir para provocar reflexão.
Quando nos deparamos com esse tipo de coleção, a pergunta que fica é: Iris é estilista ou cientista? Talvez essa seja justamente a pergunta errada. Iris van Herpen não tenta abandonar a moda para fazer ciência, nem usa a ciência apenas como ferramenta estética. Seu trabalho mostra que essas áreas talvez nunca tenham estado tão distantes quanto costumamos imaginar. Em suas mãos, física, biologia, engenharia e alta-costura deixam de disputar espaço e passam a compartilhar a mesma linguagem: a da criação. E talvez seja esse o verdadeiro papel da arte contemporânea — não oferecer respostas, mas ampliar as possibilidades daquilo que acreditamos ser possível.
Colaboração de: Leticia Américo Camargo | Editado por: Flávia Pereira


