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A Carne como Figurino: Por que a Moda de 2026 nos faz sentir que nunca somos “o bastante”?

Você já sentiu que, para “caber” na moda de 2026, você precisaria primeiro pedir desculpas pelo espaço que o seu corpo ocupa? Ao observarmos os desfiles de Nova York e Londres que acabaram de encerrar este mês, percebemos algo importante. A moda não está mais gritando por atenção; ela está sussurrando uma exclusão muito mais profunda e silenciosa. Se você sente que entrar em um provador ou abrir o feed se tornou uma tarefa emocionalmente exaustiva, saiba, o problema não é você. Estamos vivendo o auge de um fenômeno onde a nossa biologia é tratada como um detalhe técnico, ou seja, um obstáculo para o caimento “perfeito”.

Exemplo da Moda de 2026 e seu impacto na autoimagem.
Foto: Fall / Winter ’26 Khaite. | Reprodução/@modaoperandi

O Veredito de Fevereiro: A Estética do Desaparecimento

O calendário deste início de ano entregou uma mensagem clara na moda de 2026, a roupa não quer mais apenas nos vestir, ela quer nos moldar. Na Alta Costura de Paris, em fevereiro, vimos a Schiaparelli levar o surrealismo ao limite. A marca transformou o corpo humano em uma base quase inanimada para estruturas que desafiam a própria biologia. Isso ocorre através de cinturas milimetricamente esculpidas que redesenham o tronco de forma quase violenta.

Dias depois, na NYFW, marcas como Khaite e Proenza Schouler elevaram o tom da alfaiataria para algo de uma sobriedade cortante. Elas trouxeram ombros imponentes e cortes tão secos que não aceitam o “erro” de uma curva natural ou o volume da carne. O que esses desfiles de janeiro e fevereiro têm em comum é o que a Vogue Business e o The Business of Fashion (BoF) definiram nestas últimas semanas como “The Invisible Subject(O Sujeito Invisível).

Exemplo da Moda de 2026 e seu impacto na autoimagem.
Foto: Schiaparelli Spring Summer 2026 Haute Couture. | Reprodução/@maison_insider

A Estética do Sujeito Invisível

Estamos diante de uma estética onde a peça ganha autonomia absoluta e o corpo torna-se um detalhe secundário, um mero suporte técnico. Para quem habita um corpo com curvas, gordura localizada ou que simplesmente foge da grade XXP, essa moda de fevereiro de 2026 soa como um veto silencioso à existência. É o que Véronique Hyland relata em sua nova matéria para a ELLE ao analisar o rigor da Khaite nesta temporada. Além disso, ela destaca como Catherine Holstein tensiona a perfeição e a silhueta, criando uma identidade complexa que exige muito mais do que o básico. Esse é o momento em que o design parece exigir que o corpo se apague e se comprima para não ‘atravancar’ a pureza da linha proposta pelo estilista.

O Vazio no Espelho e a Moda de 2026 como Gatilho

Ao analisarmos a moda de 2026 sob a ótica da psicologia fenomenológica, este cenário é um sinal de alerta sobre como habitamos o mundo. Nesse sentido, o filósofo Maurice Merleau-Ponty, em sua Fenomenologia da Percepção, ensina que o nosso corpo não é uma “coisa” que a gente possui como um objeto. Ele é o nosso “corpo-próprio”, o único lugar onde realmente existimos.

Exemplo da Moda de 2026 e seu impacto na autoimagem.
Foto: Simone Rocha AW26 | Reprodução/@simonerocha_

No entanto, quando as passarelas sugerem que a beleza está na inexistência da carne, a nossa mente começa a ler o próprio corpo como um inimigo. Esse é o caminho perigoso para os distúrbios alimentares. Isso acontece quando você deixa de ver o seu corpo como sua casa e passa a vê-lo como um “figurino errado”. Caímos no que Heidegger e a psicóloga Dulce Critelli chamam de o “se” impessoal. Nós nos dissolvemos na massa, tentando desesperadamente nos encaixar em estéticas de prateleira (como a Clean Girl ou o Minimalismo Extremo de 2026). Nesse processo, perdemos a nossa essência. Para uma mulher que não entra no 34, a moda atual pode parecer um lembrete constante de que ela “falhou”. Contudo, na verdade, é o design que está falhando com a humanidade.

Styling como a última fronteira de resistência

A moda, porém, não deve ser vista como o inimigo; a alta costura e o design são linguagens sublimes de arte e expressão. O problema surge quando usamos essa arte como uma armadura para nos esconder, e não como uma pele para nos revelar. É aqui que o styling precisa ser resgatado e entendido como uma prática de sentido, como defende a pesquisadora Renata Cidreira. O styling de verdade, na moda de 2026 não serve para camuflar o braço ou tentar afinar a silhueta em uma busca incessante por parecer mais magra. Afinal, isso seria apenas uma forma educada de pedirmos desculpas por ocuparmos espaço.

Exemplo da Moda de 2026 e seu impacto na autoimagem.
Foto: Simone Rocha AW26 | Reprodução/@simonerocha_

Reocupar a própria imagem significa entender que a roupa é quem deve servir à morada do seu ser, e nunca o contrário. Quando escolhemos volumes, texturas e camadas não para seguir o minimalismo frio de Nova York, mas para afirmar a nossa presença, estamos praticando uma soberania emocional. Se a vitrine exige que você seja invisível, o ato de se vestir deve ser o seu grito de resistência. É usar a moda para expressar uma verdade interna que nenhuma grade de tamanho XXP consegue conter. Assim, transformamos o ato de se vestir em um manifesto onde o corpo real, com todas as suas dobras e histórias, é o protagonista absoluto da cena.

Habite a sua Pele sem Pedir Desculpas

A moda é uma linguagem maravilhosa de autodescoberta. Ela só se torna tóxica quando tentamos usá-la para apagar quem somos. O convite que te faço hoje, neste ano de 2026, é urgente, habite a sua pele como se ela fosse o seu único e mais precioso reino.

Você, que se sente invisível diante dos espelhos de lojas que ignoram a sua existência; você, que sente que o seu corpo é um erro por não refletir o minimalismo rígido das passarelas: saiba que a sua carne é a sua verdade. Não aceite ser um acessório de uma indústria que lucra com a sua sensação de insuficiência. Que o seu vestir seja um abraço em todas as suas curvas, marcas e histórias que o mundo tenta ignorar. A moda mais luxuosa que existe é a coragem de ser, em tempo integral e sem pedir licença, irremediavelmente e ruidosamente você.

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Escrito por Lyssa Bernardes I Editado por Ana Carolina Gomes 

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