Moda

Entrevista com Alexandre Pavão

Neste artigo, vocês encontrarão uma conversa que o Fashionlismo teve com o designer e estilista brasileiro, Alexandre Pavão.

Falamos sobre carreira, conselhos e sonhos. Vem conferir!

Esta entrevista foi realizada por Marina Pelegrini, redatora aqui na Fashionlismo e a responsável pela escrita deste texto.

Foto do designer Alexandre Pavão
Alexandre Pavão | Fonte Instagram (@alxndpv)

O início

Marina Pelegrini:

Me fale um pouco sobre o início da sua carreira. Quando eu fui pesquisar sobre você, descobri que quem fundou a sua marca foi a sua mãe, em 2006.

Nos conte sobre isso!

Alexandre Pavão:

Eu sou de Marília, do interior de São Paulo. A minha mãe, antes mesmo da gente ter uma marca, já trabalhava com moda.

Quando eu nasci, ela era vendedora de loja, trabalhou com boutiques e depois, em um tempo… enfim, a gente morava com os meus avós e a gente teve um momento um pouco delicado financeiramente.

Minha mãe teve que sair dessa loja para cuidar dos meus avós. E aí ela começou a vender roupa, né?

Ela virou sacoleira, teve essa função por algum tempo. E nessas vendas dela, nesses anos que ela estava vendendo essas marcas, muitos clientes procuravam coisas diferentes, coisas que não via muito no mercado.

Minha mãe já trabalhava com marcas de grande porte, como Fórum, Triton – na época era muito forte –, Reinaldo Lourenço, enfim…

E na época ela começou a produzir algumas coisas. Não tinha nome, não tinha identidade.

Na Copa eu fiz algumas camisetas customizadas para vender para a minha escola, e foi aí que a minha mãe percebeu que a gente estava fazendo produtos para vender ali, só que não tinhamos um nome, então não havia uma marca fundada.

Imagem do site da marca Alexandre Pavão
A marca Alexandre Pavão| Imagem retirada do site da marca

Foi quando ela decidiu e perguntou:

“Mas por que a gente não segue com Alexandre Pavão? Que é o meu nome de verdade, é o nome da família?”

É um nome forte, um nome que todo mundo conhece dentro da região em que a gente morava. Vamos seguir com esse nome!

Então minha mãe fundou essa marca: “Alexandre Pavão”.

A gente começou vendendo camiseta; customizando móveis; vendendo algumas coisas que ela mesmo criava. E por muito tempo – por alguns muitos anos, assim, dois, três, quatro anos… –, a gente vendia só as coisas que ela criava. Então, não tinha muito da minha criação em si, porque eu ainda estava no colegial. 

Começei a fazer faculdade em Franca, foi quando eu realmente me introduzi dentro desse mercado, foi onde eu fiz desenho industrial e técnico de calçados pelo Senai.

Foi então que eu comecei a estar dentro desse universo da moda como estilista.

Eu fui trabalhar como estilista. Trabalhei dentro de fábrica de calçados, na produção também, enfim, aprendi muitas coisas. E sem falar dos cursos que eu fiz no Senai de técnico de bolsa, técnico de curtimento de couro… diversas coisas que me trouxeram esse conhecimento hoje da marca.

Projeto ALPV | Fonte Instagram (@alexandrepavaodotcom)

Então, sim! A minha marca, quem fundou foi a minha mãe, há muito tempo atrás. E é muito legal, porque quando ela criou a marca, em 2006, ela fez uma sacola, assim, grande, escrito “Alexandre Pavão”, e tinha um pavão muito grande.

Ela andava no meio da rua com essa sacola, e as pessoas não entendiam o que era aquilo; se era uma marca, se era a promoção do meu avô (porque o meu avô era político na época), então não sabiam muito bem o que era.

E ela falava:

“É uma marca de moda do meu filho. A gente está criando uma marca de moda.”

Criou-se esse marketing boca a boca, e essa marca foi crescendo. 

Minha mãe hoje trabalha com a gente, ela está super ativa dentro da marca. Mas ela fica cuidando mais da parte do projeto social que a gente tem.

Criamos esse projeto social na pandemia, que se chama “o amor ao próximo”, mas ela continua super ativa. Eu tomei as rédeas, mas ela ainda continua aqui dentro. 

O processo criativo

Trecho do reel “Not for Climbing” | Fonte Instagram (@alexandrepavaodotcom)

Marina Pelegrini:

Eu queria saber também um pouco mais sobre o seu processo criativo: como você criou essa estética tão característica da sua marca?

Alexandre Pavão:

Eu acho que hoje talvez seja uma ideia não muito diferente. Quando eu criei, era uma coisa muito diferente. Hoje, a gente vê grandes marcas, marcas internacionais, bebendo dessa estética e usando, diluindo, então, para outros mercados, né?

É uma estética que eu posso falar que não necessariamente fui eu quem criou, até porque vem muito de algumas referências que eu via em 2014/2013, mais ou menos, que foi quando as pessoas começaram a fazer colar de corda náutica.

E aí eu pensei: Tá, essas pessoas fazem colar, essas pessoas fazem um tricô de corda náutica, por que eu não posso trazer isso para o meu universo, que é o universo da bolsa. Então, eu trouxe todas essas estéticas de corda para esse universo.

Bolsa Teddy Handbag laranja da marca Alexandre Pavão
Teddy Handbag | Fonte Instagram (@alexandrepavaodotcom)

No momento dessa junção, dessa criação desse DNA da marca – isso foi em Franca –, eu não estava morando aqui em São Paulo ainda. Eu morava do lado de uma loja de construção, onde tinha diversos tipos de mosquete, todas as cores, todos os tipos.

E aí foi que eu pensei, eu falei: legal, gosto disso! Comprei, vou transformar em alguma coisa.

Eu sempre quis trazer um novo olhar para um produto, qualquer produto, até dentro de um sapato, dentro de um caçado, dentro de uma bolsa.

Então, ao invés de usar uma coisa que já é recorrente, ao invés de usar uma argola presa na bolsa ou algum outro mosquete que é próprio para isso, por que eu não uso um mosquete que não é para esse fim, mas que eu consigo trazer uma imagem de moda, uma comunicação e além desse universo, né?

Então, a gente criou, eu criei essa estética da corda junto com o mosquete, junto com as argolas, nessa minha necessidade de ter o diferente e de ter o novo, mas ao mesmo tempo trazer a mesma função que esse item, já recorrente no universo da moda, já possui.

Eu vi a necessidade de criar alguma coisa diferente, sabe? A gente tenta trazer esse olhar para esses objetos do nosso cotidiano, para dentro do universo da moda.

Quando a gente fala de uma alça que às vezes as pessoas passam ali um fio de couro, um fio de sintético ou alguma outra coisa… Por que eu não consigo? Eu consigo ter essa mesma estética com outro produto que não necessariamente vai ser aquilo.

Por que não esse fio de P2 ou de celular ou alguma outra coisa que traga isso, sabe? Então, a gente sempre tenta trazer novos objetos que reproduzam o que esperamos dentro de um produto de moda, mas com novos objetos dando um outro significado. 

As collabs da marca

Marina Pelegrini:

A Alexandre Pavão tem muitas colaborações. Uma com a Fila em 2022, com a Hello Kitty, que fez muito sucesso em 2024, e agora a colaboração com a Melissa. Então eu queria perguntar, na verdade, se tem alguma collab que te marcou de alguma forma. 

Hello Kitty Collection. Poster de divulgação da coleção collab entre a marca Alexandre Pavão com a Hello Kitty lançada em 2024
Hello Kitty Collection | Fonte Instagram (@alexandrepavaodotcom)

Alexandre Pavão:

Essas três colaborações foram as maiores desde a criação da marca. Desde a minha vinda pra São Paulo.

No caso Fila, Melissa e Hello Kitty, eu acho que as três marcas são completamente distintas umas das outras e eu acho que o impacto delas dentro da minha marca e dentro do nosso mercado, o mercado “Alexandre Pavão”, foi muito interessante.

Eu considero que a Fila é uma marca muito esportista, acho que é uma marca de esporte. Tem um pouquinho de moda, mas eu acho que é uma marca focada em esporte. Ela é italiana, é uma marca que me deixou ter liberdade para criar coisas novas. Então, teve muita liberdade ali dentro. Foi uma coleção nacional, não foi uma coleção internacional, mas teve uma repercussão muito legal e eu super gostei, porque foi a primeira colaboração muito grande que a gente fez.

Depois a gente vem pra Hello Kitty, que foi a do ano passado, uma collab que eu não estava esperando. A gente já estava desenvolvendo essa coleção desde 2023, e é muito nostálgica, porque… Quantos anos você tem?

Marina Pelegrini:

Eu tenho 22 anos.

Alexandre Pavão:

Eu tenho 35. Então eu sou 13 anos mais velho que você. Há 13 anos eu já me via, não consumindo Hello Kitty, mas me via tendo amigas dentro desse universo da Hello Kitty, é uma coisa muito, muito nostálgica e traz muitas memórias boas, então acho que essa collab foi muito isso, nostalgia, sabe?

Eu acho que dentro das collabs que a gente fez, acho que cada uma é marcante por algum momento.

Acho que Hello Kitty é muito nostálgica, a Fila é muito desafiadora, porque é uma marca de esporte, enfim. E aí a gente vem com Melissa – que era um sonho trabalhar com a Melissa!

Há 10 anos eu fiz entrevista pra ser designer da Melissa e não deu certo. Deus sabe de todas as coisas, não deu certo, não era pra ser e depois de 10 anos, ‘‘ aqui assinando uma collab com a Melissa com o meu nome

Acho que uma palavra pra resumir seria “gratificante”, sabe? É muito legal poder estar dentro de uma marca, fazer parte de uma marca, ter o meu nome associado a essa marca, vindo de uma história que a gente já teve, sabe? Eu acho que depois de 10 anos, assinar essa coleção é um marco. Então, é muito sobre isso. 

Poster de divulgação da coleção collab 2025 entre a Melissa e a marca Alexandre Pavão
Collab com a Melissa| Fonte Instagram (@alexandrepavaodotcom)

Marina Pelegrini:

Outra pergunta que, na verdade, eu queria te fazer sobre a colaboração da Hello Kitty. Eu vi que essa coleção possui muitos itens no sentido de vestuário, muitas camisetas, saias, vestidos…

Como uma marca que cria acessórios, principalmente bolsas, pequenos acessórios de couro, chapéus… como foi criar uma coleção de roupas, uma coleção do tamanho da coleção que foi a da Hello Kitty? 

Alexandre Pavão:

É desafiador. A gente gosta de desafio, eu gosto de desafio.

Na verdade eu sempre tive desejo de criar roupas, sempre me vejo criando peças. Mas eu acho que o desafio hoje da marca, sendo uma marca independente, é tentar se encaixar em algum momento do lifestyle da pessoa.

Hoje, então, a gente vende bolsa, mas amanhã eu posso vender uma jaqueta, como posso vender uma calça, como posso vender uma camiseta. 

É um desafio, assim, foi um desafio criar roupas, porque realmente, pra mim, eu acho que quando a gente cria uma coleção de roupas, eu acho que precisamos pensar em todo mundo que queremos vestir, e é muito desafiador hoje estar dentro do mercado de vestuário, são muitos processos.

Pra produção de um acessório, é só um tamanho, só uma modelagem, você não precisa ficar fazendo diversas coisas. Então foi muito desafiador, mas era uma coisa que eu queria muito, trazer essas peças e aí eu acho que eu vi uma super oportunidade. 

Marina Pelegrini:

Eu acho muito interessante também como as roupas são unissex. 

Hello Kitty Collection. Imagem de uma das roupas da coleção collab entre a marca Alexandre Pavão com a Hello Kitty lançada em 2024
Hello Kitty Collection | Fonte Instagram (@alexandrepavaodotcom)

Alexandre Pavão:

Elas precisam ser! Eu acho que a gente já passou do tempo de ter roupa pra mulher e roupa pra homem. Acho que cada um usa o que quiser. 

Anota aí!

Marina Pelegrini:

Uma última pergunta que eu tinha para você é se você teria algum conselho ou alguma dica para pessoas que querem começar nessa área de moda, de design, de desenho de moda, querem começar talvez a sua própria marca…

Alexandre Pavão:

Um conselho, que eu falo para todo mundo que quer começar uma marca, ou que é estudante, etc.. É realmente pensar fora da caixa.

Quando a gente fala “pensar fora da caixa”, as pessoas acham que é muito comum, né? Todo mundo fala pra pensar fora da caixa, mas realmente a gente precisa sair do óbvio e nunca desistir, sabe?

A minha marca vai fazer 20 anos no ano que vem e eu nunca desisti de estar aqui onde eu ‘‘ e conseguir fazer tudo o que eu estou conseguindo fazer. Então eu acho que a gente precisa ter força de vontade, não desistir, e ser um pouco, eu diria, pensar um pouco mais estratégico.

Eu acho que muitas das pessoas acabam sendo muito criativas e esquecem o lado de estratégia da marca, que é muito business.

Acho que fora disso, a gente precisa saber que o mercado de moda é um negócio, ninguém cria uma marca para ficar brincando de fazer alguma coisa, o intuito sempre vai ser ganhar dinheiro. Então eu acho que a pessoa precisa realmente entender sobre o negócio, saber precificar, saber cobrar pelo seu trabalho, e realmente focar em uma coisa que você super acredita e que mesmo se cinquenta pessoas estiverem falando “não”, se tiver um “sim”, é o que basta sabe? Eu acho que basicamente é isso.

Marina Pelegrini:

Obrigada pela conversa Alexandre! O Fashionlismo agradece!

Escrito por: Marina Pelegrini | Editado por: Alice Maria

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