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Elas lutando pela vida, eles ironizando a violência de gênero

Mais de 110 anos após o primeiro dia oficial para marcar a luta das mulheres, após anos de campanha de conscientização de que “não é não”, homens compartilham vídeos simulando agredir suas companheiras caso elas lhes digam não.

Essas publicações, nas quais eles gravam a si mesmos batendo no ar e dizendo “esse é meu treino se ela disser não”, são chocantes, absurdas e refletem o “humor” e o pensamento de muitos homens no sétimo país que mais mata mulheres no mundo.

No mês de março, e estando tão próximo do dia 8, os conteúdos produzidos fazendo apologia à violência contra a mulher estão sendo apurados pela Polícia Federal e o governo brasileiro espera explicações do próprio TikTok sobre a “trend”. 

Do luto à luta

A luta do 8 de março (8M), em Barbacena, foi marcada pela “Marcha das Stefanis”, realizada no dia 7. Em memória à vida e à história de Wanderleia Stefani Leite, vítima de feminicídio, as organizações, movimentos sociais e sua família se reuniram pela vida das mulheres.

Em entrevista ao Fashionlismo, Marina Campos, professora, militante feminista na Marcha Mundial das Mulheres e integrante da Direção Nacional de Mulheres do PSOL, fala sobre a luta das mulheres e quais são os objetivos deste ano. 

Desde 2012, Marina está na Marcha Mundial e para ela o 8M é um dia de união. “É um dia de ligar todos os territórios do mundo que lutam pela transformação social. É a esperança da mudança dos rumos da humanidade através da luta feminista”, afirma.

Com a crescente onda conservadora no Brasil e no mundo, desde 2016 o feminismo vem sendo descredibilizado e sua necessidade na vida das mulheres é colocada em descrédito. “Eu me tornei feminista por uma questão de sobrevivência”, começa ao falar sobre o porquê de lutar pelas mulheres. 

“E eu não sou uma mulher?”

Para Marina, a esperança, sua chama revolucionária, está em um lema da Marcha: “Transformar o mundo para mudar a vida das mulheres”. Este ano a luta é “por uma vida digna e por justiça econômica, social, racial e climática”, conta.

Em 1851, a abolicionista e ativista Sojourner Truth discursou na Convenção dos Direitos das Mulheres em Ohio e suas palavras ecoam até hoje. “Aquele homem lá diz que as mulheres precisam de ajuda para entrar em carruagens e atravessar valas, e sempre ter os melhores lugares não importa onde. Nunca ninguém me ajudou a entrar em carruagens ou a passar pelas poças, nem nunca me deram o melhor lugar. E eu não sou uma mulher?”, afirmou Sojourner. 

A jornada dupla das mulheres

Dentro do feminismo existe o conceito de interseccionalidade. O gênero não é o único atravessamento da vida das mulheres, já que existem importantes recortes de raça, classe e sexualidade a serem feitos. Nesse sentido, a luta do PSOL pontua desde o fim da escala 6×1 até a luta contra a fome. 

No Brasil, as mulheres trabalham 10 horas a mais do que os homens, pois, além da jornada de trabalho convencional, também são somados o trabalho doméstico e de cuidado. A implementação da jornada 5×2 e a diminuição da carga horária de trabalho seriam benéficas para as mulheres brasileiras, principalmente para as mulheres negras. 

Além de serem mais prejudicadas pela jornada dupla, elas ocupam lugares mal remunerados e com péssimas condições de trabalho. De acordo com o estudo “Estatísticas de Gênero”, divulgado pelo IBGE, mulheres negras e pardas trabalham 1,6 horas a mais, no trabalho doméstico, do que mulheres brancas. 

Nesse sentido, é fundamental pautar outros aspectos para além do gênero e unir a luta das mulheres a outras lutas sociais. “Essa construção unificada (entre a esquerda brasileira) se deve aos constantes ataques de Trump à América Latina e ao mundo e essa crescente do fascismo. Um aspecto muito importante do 8 de março no Brasil será a solidariedade com os povos cubano, venezuelano e palestino”, afirma Marina.

É uma data comemorativa?

Outro aspecto que ronda o 8M são os “parabéns”, as flores, os presentes e os elogios de homens para mulheres, como se esse dia fosse uma celebração à mulher e à feminilidade. Algumas marcas usam estratégias de venda que reforçam a ideia de presentear as mulheres neste dia “especial”. 

Na “Marcha das Stefanis”, Vivian Neves, presidente do PT de Barbacena, trouxe esse assunto em sua fala. “A gente é chamada de linda e apanha no outro dia”, afirmou.

A respeito de encarar o 8M como um dia de reforçar estereótipos de gênero, como “gostar de flores, chocolates e rosas”, Marina concorda que é um atraso na luta e afirma que é uma forma de romantizar o papel das mulheres na sociedade. 

“É dia de lutarmos pela socialização dos trabalhos domésticos e de cuidados com o Estado e com os homens. Dentre outras pautas que estão expressas em muitos anos de construção do movimento feminista”, continua. 

Em 2026, o 8M ocupa um lugar histórico importante. Jackeline Romio, demógrafa em entrevista à Agência Patrícia Galvão, afirma que o Brasil vive uma epidemia de violência de gênero, para além do feminicídio. Os índices são alarmantes e aumentam ano após ano.

“Além disso, a denúncia do aumento dos feminicídios no Brasil será uma questão crucial”, responde Marina, sobre como a conquista do direito das mulheres é uma construção diária. 

Os dados apontam que 3,7 milhões de mulheres sofreram violência doméstica em 2025. Em Minas Gerais, um homem de 35 anos foi absolvido do crime de estupro de vulnerável, cuja vitima tem 12 anos, pelo desembargador Magid Nauef Láuar. Magid é investigado por abuso sexual. São casos e mais casos, com milhares de mulheres sofrendo todos os dias. 

Marina faz um apontamento do momento político vivido pelo Brasil no governo Bolsonaro, que prejudica o país até hoje, e a vida das mulheres: “O bolsonarismo é essencialmente fascista. Seu discurso de ódio contra mulheres, grupos oprimidos e trabalhadores, aliado ao desmantelamento político das instituições públicas e à legalização do porte de armas no Brasil, teve profundas consequências para a vida de mulheres e meninas”.

A “trend” citada no início da matéria é apenas a ponta do iceberg. O movimento redpill, a misoginia lucrativa e recreativa reforçam a sociedade atual de violência e desumanização das mulheres.

Ainda nesse panorama, o bolsonarismo impacta a vida das mulheres para além das redes sociais. “O aumento dos feminicídios, cometidos com extrema crueldade, a tentativa de legalizar a pedofilia e o casamento infantil… A tentativa de eliminar o direito ao aborto legal no Brasil, que já é altamente restrito, continuam sendo alvos dos apoiadores de Bolsonaro, que ainda ocupam inúmeras cadeiras eleitas no Congresso Nacional e exercem considerável poder político e influência sobre a classe trabalhadora do país”, afirma Marina. 

De 2026 para o futuro

O cenário, os dados e o comportamento de muitos homens é hostil para as mulheres, para a conquista de direitos e de uma cidadania plena.

Segundo Marina, é importante se organizar para vencer a opressão exercida sobre as mulheres. “A auto-organização das mulheres, com o feminismo popular, me permitiu enxergar que a única forma de superar é através da luta coletiva. Me ensinou que essa violência é fruto de um sistema patriarcal, que só pode ser derrotado com muita organização social”, diz. 

Apenas um dia no ano não é o suficiente para que sejamos todas livres. De acordo com Marina, a luta precisa se enraizar: “Com organização permanente da luta feminista enraizada nos territórios, locais de trabalho, sindicatos, escolas, universidades, para termos a capacidade de mudança real na vida das pessoas. A sociedade que queremos começa no hoje, o nosso discurso é capaz de convencer muitas pessoas”.

Não foi este ano que estivemos de roxo e verde, o primeiro pela justiça e igualdade e o segundo pela esperança, enumerando nossos avanços e conquistas. Pelo contrário, os dados assustam mais a cada dia. Ainda assim, haverá um dia em que nossas filhas não sentirão dor ouvindo Maria da Vila Matilde.

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Escrito por: Geovana Nunes | Editado por: Maria Clara Machado

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