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Distopia ou presságio? O que o desfile de Elena Velez na NYFW revela

Se há dez anos a sociedade civil, principalmente por meio da internet, avançava em discussões sobre amor próprio e aceitação corporal, hoje os corpos femininos são coagidos a estar sempre magros, impecáveis e subservientes. Nada sensual ou vulgar, nada de se impor ou invocar qualquer coisa que remeta à energia “masculina”. Esperam de nós exatamente uma propaganda de dona de casa dos anos 60.

São momentos como esses que clamam por desfiles como os de Elena Velez. Ela já foi premiada e já vestiu celebridades como Jenna Ortega, Charli XCX, Doja Cat e Grimes, além de ser membro do Conselho de Designers de Moda da América. Sua obra mistura metal, materiais recicláveis e se inspira na força feminina, muito longe do ideal de tradwife. 

A visão criativa de Elena Velez

A Semana de Moda de Nova Iorque trouxe as coleções de outono e inverno de marcas como Ralph Lauren, Marc Jacobs, Calvin Klein e Carolina Herrera. Assim, a indústria da moda já começa a traçar e visualizar as tendências para o inverno apontadas pelos desfiles. Mas muito além de indicar tendências e estilos, a moda também fala sobre comportamento.

Para Elena, sua identidade visual é “antifrágil” e “agressivamente delicada”. Enquanto isso, a Vogue categorizou sua obra como “explosiva e agressiva”. Há quem diga que exista uma dicotomia entre o que Elena explora em seu trabalho: feminilidade e força. Mas não há contradição alguma entre o feminino e o forte. 

De ascendência porto-riquenha e filha de mãe solo, Elena foi criada em Milwaukee, Wisconsin. Sua mãe era capitã de um navio na região dos Grandes Lagos. O convívio com ela e o impacto de crescer no Cinturão da Ferrugem, local que já fora próspero na produção industrial, tiveram reflexos em sua arte. As referências à heroínas apocalípticas, o uso de materiais recicláveis, de metais e de texturas disruptivas marcaram o desfile de Elena, que atua como marca desde 2021.

Peças texturizadas brilham na passarela

Na coleção deste ano, peles aparecem à mostra, os cabelos estão penteados para trás, as sobrancelhas estão ausentes ou bem disfarçadas, e as roupas oversized exibem rasgos e texturas que lembram sacos de lixo, algumas semelhantes a plástico derretido. O som ambiente do desfile era um rock bem marcado e a iluminação precisa evocava o clima soturno.

O metal aparece em algumas peças, e as cores branco, marrom, preto e cinza também estão presentes. Apesar de ser uma coleção de outono/inverno, os corpos estão descobertos e com transparências que revelam a nudez. Além do uso de corsets ou bodys, não há peças embaixo acompanhando. 

Destaca-se no desfile um vestido longo, marcado pelas texturas de saco de lixo e exaltando o busto da modelo, que trazia em seu rosto um “acessório” similar aos usados na recuperação de cirurgias plásticas.

A crítica à indústria de beleza

Diferentemente de outras marcas que trouxeram looks mais fechados em alfaiataria e que remetessem ao inverno, Elena Velez apostou na estética gótica, com flertes ao punk. Segundo relatório exposto no Congresso Mundial da Olimpíada da ISAPS, em 2024 foram feitas mais de 17,4 milhões de cirurgias plásticas no mundo. O Brasil é o país que lidera o ranking e, em 2024, realizaram-se mais de 2 milhões de cirurgias. 

O ideal de beleza muda conforme se faz necessário ajustar o controle sobre os corpos e diferenciar suas respectivas classes, afinal, um corpo cirurgicamente modificado exige dinheiro suficiente para que o procedimento seja seguro. Em 2024, a inteligência artificial da revista Playboy elegeu a influenciadora Janaína Prazeres como a mulher mais bonita do mundo. Para alinhar sua autoimagem ao presente, ela apagou fotos posteriores à realização de mais de 20 procedimentos estéticos.

Na contracorrente, Demi Moore, protagonista do filme A Substância, que critica justamente a busca imparável pela perfeição estética, foi eleita uma das mulheres mais bonitas do mundo pela revista People. 


No contexto em que a indústria da moda, beleza e bem-estar exige valores, aparência e diferenciação social a partir do luxo, a coleção de Elena Velez provoca sensações antagônicas em relação à beleza simétrica e harmônica.

Após apresentar uma obra de arte ao mundo, a intenção, o objetivo e a expectativa da criadora com a criação são, em parte, especulação. Portanto, o impacto e a repercussão não estão sob o controle de quem a produz. A visão de uma modelo com um acessório que remete ao pós-cirúrgico provoca reflexão sobre o que se introjetou como beleza. Nesse sentido, pode-se pensar que, na verdade, vivemos um presságio de distopia tragicômica, como retratam Coralie Fargeat e Emilie Blichfeldt em A Substância e A Meia-Irmã Feia.

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Escrito por: Geovana Nunes | Editado por: Maria Clara Machado

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