Descartar é Luxo, Reutilizar é Sobrevivência: O Mercado da Moda que Cresce no Carnaval.

(Reprodução/Instagram: @lohannetavares)
Alterações climáticas, questões sociais e a maior festa popular do mundo são sinônimos da dualidade entre impacto negativo e geração de renda.
Em fevereiro, o Carnaval transforma cidades, celebrações e mercados em todo o Brasil. Reconhecida como uma das maiores festas populares do mundo, a folia não reúne apenas música, dança e tradição: também movimenta uma extensa cadeia produtiva que envolve gastronomia, turismo, moda e, especialmente, a indústria artesanal e de figurinos. O evento, além de entreter, gera renda para milhares de trabalhadores e movimenta bilhões de reais na economia brasileira.
No entanto, a dimensão ambiental desse ciclo de produção e consumo começa a chamar a atenção. O modelo atual da moda carnavalesca se caracteriza pela produção em larga escala de fantasias e adereços, muitas vezes feitos com materiais de baixo custo e curta durabilidade. Essa prática incentiva um padrão de consumo acelerado baseado na lógica do “usar e descartar”.
Esse comportamento se reflete de forma visível nos resíduos gerados durante o Carnaval, especialmente nos resíduos têxteis provenientes de fantasias, adereços e peças de figurino produzidos para poucas horas de uso.
Diante desse cenário, surge uma pergunta inevitável: é possível conciliar tradição, criatividade e sustentabilidade no Carnaval?
A especialista em Economia Circular Raíssa Pinati afirma que, apesar dos desafios estruturais, já existem experiências que demonstram que tendência e sustentabilidade podem caminhar juntas.
Para exemplificar as possíveis soluções existentes, a reportagem se debruça sobre três eixos, com exemplos reais de impacto.
Novos modelos de negócio
O Sustenta Carnaval é um projeto que reaproveita fantasias e tecidos descartados após os desfiles na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro. Muitas dessas peças, usadas por integrantes das alas comerciais, acabam no lixo por causa da logística da cidade, mesmo estando em bom estado.
Desde 2022, em parceria com a Liesa, a Prefeitura e a Comlurb, o projeto recolhe esse material e garante que ele tenha um novo destino. A iniciativa faz parte do plano de sustentabilidade do Carnaval carioca.
Em cinco anos, o Sustenta Carnaval evitou que 66 toneladas de tecidos fossem parar em aterros sanitários. Com isso, também ajudou a reduzir a emissão de gases que contribuem para o aquecimento global.
Depois da coleta, as fantasias passam por seleção e voltam a ser usadas por meio de venda a baixo custo, aluguel, doações e projetos educativos. O material atende escolas, teatros, universidades, blocos e produções culturais no Brasil e em outros países.

Fonte: Sustenta Carnaval/Divulgação
Parte dos tecidos é transformada em bolsas e acessórios, gerando renda para mulheres migrantes e comunidades locais. O projeto também desenvolve parcerias com universidades e festivais no exterior.
Além de ajudar o meio ambiente, o Sustenta Carnaval fortalece a economia criativa, amplia o acesso à cultura e apoia a volta de desfiles em cidades que haviam interrompido suas atividades.
Com sede no Rio de Janeiro, a iniciativa planeja crescer e levar esse modelo para outros eventos. O objetivo é mostrar que o Carnaval pode ser bonito, lucrativo e também responsável com o meio ambiente.

Produto do projeto Mulheres do Sul Global Fonte: Sustenta Carnaval/Divulgação
Economia criativa em movimento
Para a designer e figurinista Lohanne Tavares, o reaproveitamento representa o principal caminho para tornar a moda carnavalesca mais sustentável. A artista transforma peças descartadas em novos figurinos, prolongando o ciclo de vida dos materiais.
Segundo Lohanne, reutilizar vai além de uma escolha estética. A prática reduz a pressão sobre os recursos naturais, evita novos processos industriais e amplia o tempo de uso de tecidos e adereços já existentes.
Além de desenvolver peças criativas, a artista também realizou oficinas no espaço do Sustenta Carnaval. Nessas atividades, promove ações educativas com o uso de resíduos têxteis, promovendo a economia circular.

Oficina no Sustenta Carnaval Fonte: Lohanne Tavares/Divulgação
O valor do trabalho artesanal
Na base desse processo está o trabalho manual. A designer Flávia Pisco se destaca como uma das principais referências em upcycling no Rio de Janeiro, técnica que transforma materiais descartados em novos produtos, prolongando sua vida útil.
Desde 2020, no próprio ateliê, ela converte resíduos em arte. A profissional reaproveita retalhos e sobras de outras produções para criar fantasias, acessórios e produtos de categorias variadas.
Cada material carrega uma história e ganha novo significado ao se transformar em peça, afeto e recomeço. Além do impacto ambiental, Flávia ressalta os efeitos sociais da prática.
Segundo ela, cada material carrega uma história e ganha novo significado ao se transformar em peça, afeto e recomeço.
Flávia também dá cursos e workshops, aplicando a criatividade e o upcycling raiz.
Ensinar alguém a transformar o que seria descartado em arte significa promover autonomia, geração de renda e fortalecimento da autoestima.
A reutilização e a customização também ganham espaço entre foliões, blocos e ateliês independentes. Reformar fantasias, trocar detalhes e combinar peças antigas com novas tendências se tornou, além de uma alternativa sustentável, uma forma de expressão pessoal.


(Reprodução/Instagram: @piscoupcycling)
No ritmo dos tambores e no movimento das fantasias reinventadas, surge um novo significado para a folia: celebrar, sim mas com consciência, inclusão e respeito ao meio ambiente.
Entre desafios ambientais, oportunidades econômicas e iniciativas criativas, o Carnaval brasileiro passa a redesenhar seus caminhos. A festa segue como símbolo de identidade cultural e geração de renda, mas também se consolida, pouco a pouco, como espaço de inovação e responsabilidade.
O futuro da folia depende, cada vez mais, das escolhas feitas hoje entre descartar ou transformar, consumir ou preservar.
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Escrito por Larissa Toblu | Editado por Ana Carolina Gomes


