A 4ª temporada Bridgerton e a moda controlando as mulheres
Querido e gentil leitor, a segunda parte da 4ª temporada de Bridgerton, estreia hoje, 26/02 na Netflix, e promete encerrar com louvor, e bastante drama, uma versão encantadora do conto da Cinderela. O sucesso da série é acompanhado, e ampliado, pela repercussão nas redes sociais e uma das melhores piadas desse tema é: como Benedict não reconheceu Sophie?! Era tão óbvio!
Aviso importante: a partir daqui detalhes da primeira parte serão pontuados. Todos devidamente avisados? Vamos lá!

A “gata borralheira” da vez se envolve com Benedict Bridgerton em uma circunstância incomum: um baile de máscaras. Sophie se passava por uma lady, pelos seus trajes e presença na casa Bridgerton como convidada, apesar de não ser.
Tal qual o artista talentoso que é, Benedict se lembra perfeitamente de sua dama de prata e a desenha inúmeras vezes. Cabelo, olhos, máscara, boca e trajes perfeitamente replicados em papel. Em qualquer lady ele busca aquela mulher, aqueles traços. Mas ainda que conviva com Sophie, muito intensamente, ele não a reconhece.
Protagonizada por Sophie e Benedict, a 4ª temporada se passa entre a primeira e a segunda década do século XIX. Nesse contexto, o amor e a memória do mocinho não se sobrepõem aos atravessamentos da cultura.

Ele não reconhece Sophie com vestes de empregada, não pelas vestes, mas pela posição social destoante com a “lady” que ele conheceu. Porque sim, a moda é um grande diferenciador de classes.
EU TE AMO! MAS VOCÊ É POBRE…
Não existe uma fã de Orgulho e Preconceito que não se arrepie, e dê altas risadas, com a declaração do Sr. Darcy para Elizabeth. “Eu tinha que vê-la. Eu lutei contra o bom senso, a expectativa de minha família, a inferioridade de seu berço e minha classe social. Estou disposto a deixar tudo de lado e lhe pedir para pôr fim à agonia. Eu a amo. Ardentemente. Por favor, me dê a honra de aceitar minha mão”, disse o maior romântico inglês que já pisou na terra.
Diferente da saga Bridgerton, iniciada nos anos 2000, os livros de Jane Austen foram escritos entre o final do século XVIII e o início do século XIX. Nessa época, o vermelho, por exemplo, era um tom complexo de atingir, o que encarecia os tecidos nesse tom.

Caroline Bingley, irmã do Sr. Bingley, usa um vestido vermelho vivo em casa, na versão de 2005 com Natalie Portman. Comparando com as vestes de Lizzie, ao seu lado, o tecido, caimento e cor contam o que já sabemos sobre Caroline: ela é rica. Em casa, Lizzie costuma usar marrom, cinza e azul bem escuro. Na rua, as irmãs Bennet já aparecem com vestidos mais vivos.

Voltando à Bridgerton, embora a cor seja mais lúdica e funcione muito para a narrativa audiovisual, a qualidade, caimento, cortes e decotes dos figurinos nos dizem quem é lady ou criada.
O colar de Sophie está presente no primeiro encontro dela com Benedict e aparece quando ela usa um vestido mais decotado das irmãs dele. Ainda assim, ele não a reconhece! A dama mascarada, Sophie se passando por lady, é uma mulher misteriosa da sociedade, uma suposta prima ou parente dos Penwood. Mas Sophie é a criada que Benedict conheceu em um dia de bebedeira. Não podem ser a mesma mulher, pois uma jamais poderia se apresentar como a outra.
Uma não circula nos mesmos lugares que a outra. Esse impasse social, esse sectarismo de classe é tão vívido que ele não cogita que a dama não seja uma dama. Porque apesar do personagem, na série, ser mais progressista e até mesmo disruptivo, ele é filho de um visconde.
Odeia as convenções sociais, mas odeia do seu próprio jeito: tudo que o limita merece sua atenção e isso independe das prisões que não são sobre ele.

AS PAREDES FALAM, MAS NUNCA FORAM PAREDES
A vida “invisível” dos criados é retratada com muito bom humor na quarta temporada, na qual aquela sociedade se percebe disfuncional sem os trabalhadores que a cercam. Damas e cavalheiros pouco sabem sobre a arrumação de suas próprias vestes, mas sabem francês, piano, bordado entre outras atividades.
Mais uma vez Sophie consegue ser a reunião de dois mundos: ela é letrada, afiada e inteligente como uma dama, mas também prática, funcional e exemplar em seu trabalho. Essas facetas da personagem são justamente o que impede Benedict de reconhecê-la com mais facilidade.
Se Sophie estivesse vestida, se comportasse e convivesse na alta sociedade ele a teria reconhecido, pois ela ali, entre os penteados elaborados e figurinos de modistas francesas que ele a procurava. A questão do acesso ao baile, ao vestido, à carruagem, sapatos, luvas e tudo do melhor também são elementos que deixam a identidade da moça enevoada.
COMO ERA NO PRINCÍPIO AGORA E SEMPRE
Mas essa era a época. Hoje não é possível delimitar classe social, prestígio e cifras do salário de alguém apenas pelos trajes. Nossa forma de nos organizar socialmente já não é mais dividida dessa maneira, podemos ascender socialmente sem contar com títulos de nobreza.
Será mesmo? Será que a olhos nus somos todos iguais, independente da marca que usamos e da forma como nos comportamos?
É possível que você já tenha se deparado com vídeos, geralmente de mulheres, dizendo “isso é elegante… isso é brega”. Com o tempo o escracho e o humor de crítica aos costumes subverteu esses áudios com imagens esdrúxulas para “elegância e vulgaridade”.
Os looks “elegantes” geralmente eram mais fechados, não marcavam o corpo e lembravam sempre uma projeção de boss woman. CEO, executiva, chique, séria, mas também jovem, antenada e estilosa. Tudo muito distante das mulheres que somos, vemos e conhecemos. Que usam sim calça jeans skinny, animal print, camisas escrito love love love, calças rasgadas, shorts curtos, vestidos tubinho de malha, couro sintético, transparência e muita sensualidade.

Outra trend que chama a atenção, nesse aspecto, é: você parou de se vestir para o olhar masculino. Mas a substituição de um estilo mais sensual por uma imitação barata e anêmica de esposa dos anos 60 não é subversão ao desejo masculino, só prova que mesmo mudando ele ainda impera sobre nossos corpos.

A ascensão do movimento redpill e a súbita mudança da mulher CEO, chique e elegante para a anêmica personagem de saia plissada não são fatos isolados. Os homens que aparecem, ou fingem estar, em podcast e falam um milhão de regras de comportamento e conduta para mulheres influenciam nessas mudanças.
Porque eles precisam que suas esposas, suas noivas se pareçam, e principalmente se comportem, com mulheres delicadas, femininas, dóceis, gentis e solícitas. E qual traje passa mais essa visão: um vestido vermelho tubinho ou um vestido azul claro até os pés com um lindo lacinho na cabeça coroando essa mulher valorosa?

VOCÊ TRANSCENDEU OU CAIU EM OUTRA LADAINHA DO PATRIARCADO?
Além disso, a sensualidade na forma de vestir cada vez mais carrega os estigmas de uma mulher vulgar e, muitas vezes, associada à prostituição. O primeiro trabalho do mundo, e a maioria das discussões acerca dele, são carregadas de muita moralidade. As mulheres consideradas de “bem”, de “família” precisam se afastar dessa imagem tão “impura”.
Porém com o avanço do conservadorismo, na política e nos costumes, essa linha, antes questionada, entre “mulher para casar” e “ mulher para transar” está cada vez mais tênue. Tatuou uma borboleta em 2003? Vish… a pista vai ficar salgada para você.
Em seu Instagram, Carol Lardoza, historiadora da moda e criadora de conteúdo, afirma: “Porque a roupa também marca distância. Marca quem pode ser lido como “estiloso” e quem ainda é visto como “brega”, sem informação do que é adequado”.
O tema tratado no post de Carol é muito mais sobre a apropriação do estilo periférico, como chinelo e blusa de time, como algo super maneiro apenas quando saí da periferia. Mas é possível também refletir como a roupa, a moda em geral, é esse cartão de visita social.
Nem mesmo a esperança e expectativa de ascensão social vem destituída de fetiche de mercadoria. Quando você se imagina na vida dos sonhos, a imagem que vê é usando um uniforme e calça jeans ou alfaiataria e bolsas de luxo?
Até mesmo nossos sonhos mais importantes e genuínos revelam como esse aspecto da moda como identidade é permeado por juízo de valor. Afinal, há quem afirme que “roupa não define caráter, mas o caráter escolhe a roupa”. Como se caráter fosse uma coisa imutável e a moral não fosse construída e lapidada para que a filha de quem contrata as mulheres que usarão uniformes jamais possa ser confundida com elas.
Os conflitos da 4ª temporada de Bridgerton ainda podem piorar muito! Pois, como amar e assumir uma mulher que foi relegada à margem e à invisibilidade social?

Se nem mesmo as mulheres mais progressistas da série, como Eloise Bridgerton, parecem reparar que na verdade, as paredes que ouvem e veem, são as trabalhadoras sujeitas à se misturar com a mobília. Afinal, quem faria cachos nos cabelos das damas e apumaria seus vestidos senão as mulheres que usam coques simples.
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Escrito por Geovana Nunes I Editado por Ana Carolina Gomes


