Mugler transforma a natureza em criatura na Paris Fashion Week 
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Mugler transforma a natureza em criatura na Paris Fashion Week 

Para a Primavera/Verão 2027, o estilista português e diretor criativo da Mugler, Miguel Castro Freitas, olha para flores, insetos, pássaros, escamas e peles não como referências decorativas, mas como matéria-prima para criar corpos que parecem estar em processo de transformação. 

É uma natureza estranha, exagerada e quase extraterrestre, exatamente o tipo de paisagem que faz sentido dentro do imaginário construído por Thierry Mugler. Apresentada em 5 de outubro, durante a Semana de Moda de Paris, a coleção “Naturalia X” encerra a trilogia de “Clichês Glorificados” iniciada pelo estilista em sua chegada à direção criativa da maison. 

Depois de investigar a sedução em Stardust Aphrodite, e os códigos da própria Mugler em capítulos anteriores, Freitas chega à natureza para desmontar a fronteira entre aquilo que é humano, animal e fantástico.

A escolha do tema também estabelece uma conversa direta com a história da casa. Em 1997, Thierry Mugler apresentou Les Insectes, um dos desfiles de alta-costura mais emblemáticos de sua carreira, povoado por referências ao universo dos insetos e por silhuetas que transformavam as modelos em criaturas. 

Três décadas depois, Freitas retoma essa memória, mas a amplia para incluir outros elementos do mundo natural. O resultado é uma coleção em que o corpo não aparece simplesmente vestido, mas modificado.

Uma natureza fantástica e excêntrica

O título Naturalia X já sugere a operação. Em vez de reproduzir flores, borboletas ou pássaros de maneira literal, Freitas imagina como esses elementos poderiam se comportar em um corpo humano.

Há ombros que lembram asas, superfícies que remetem a asas de insetos, aplicações semelhantes a pétalas e volumes que parecem formar uma carapaça. Penas aparecem como extensão da silhueta, enquanto texturas animais são deslocadas para peças que misturam sensualidade e estranheza.

Essa abordagem é particularmente coerente com o próprio histórico de Mugler. O fundador da maison tinha uma relação recorrente com o mundo natural, mas o tratava por meio da fantasia e da metamorfose. Insetos, animais e elementos botânicos apareciam em suas criações como imagens de força e transformação, muitas vezes ampliados até adquirirem proporções quase sobrenaturais.

Freitas recupera justamente essa característica, mas acrescenta uma camada contemporânea: a natureza de Naturalia X parece ter passado por algum tipo de intervenção. Ela é orgânica, mas também artificial; familiar, mas estranha.

O corpo como ponto de partida da Mugler

Desde sua chegada à Mugler, Miguel Castro Freitas vem trabalhando com uma das características mais reconhecíveis da maison: a construção de uma silhueta corporalmente marcada.

Na coleção, essa relação aparece em cinturas extremamente estreitas, quadris destacados e ombros ampliados, criando novamente a famosa forma ampulheta associada à Mugler. Mas, desta vez, o corpo humano funciona apenas como ponto de partida. A partir dele, a roupa cria extensões, deformações e novas possibilidades anatômicas.

“Não fazer formas espartilhadas e ampulheta na Mugler seria ignorar uma grande parte de seu legado”, explicou Freitas à Vogue, nos bastidores do desfile, relacionando as silhuetas à dúvida sobre a própria identidade das criaturas que aparecem na coleção.

Assim, a roupa deixa de ser apenas uma extensão do corpo, para criar uma nova espécie entre o humano e o fantástico. É uma continuação bastante natural da ideia de metamorfose, que atravessa a história da maison.

Insetos, flores e pássaros no centro da metamorfose 

Entre as imagens mais marcantes da coleção estão as referências aos insetos. Há construções que lembram asas, superfícies iridescentes e estruturas que parecem pertencer a um exoesqueleto. O efeito é deliberadamente artificial, como se uma criatura microscópica tivesse sido ampliada até ocupar o espaço de uma pessoa.

As flores aparecem de maneira igualmente transformada. Em vez de simplesmente decorar vestidos, seus formatos são incorporados à arquitetura das peças. Pétalas se tornam volumes, texturas orgânicas aparecem sobre o corpo e elementos botânicos parecem crescer a partir das roupas.

Os pássaros também entram nesse vocabulário. Penas e volumes coloridos aparecem principalmente nos acessórios e na beleza, ampliando a sensação de que as modelos não estão apenas usando roupas inspiradas na natureza, mas assumindo características de outras espécies. A beleza do desfile seguiu a mesma lógica, com um grande adereço de penas cobrindo a cabeça e transformando o rosto em parte da criatura.

Tudo isso acontece sem abandonar a sensualidade característica da Mugler. Transparências, recortes, pele à mostra e peças ajustadas ao corpo continuam presentes, mas agora dividem espaço com elementos que tornam a figura humana menos reconhecível.

Entre o orgânico e o tecnológico

A coleção da Mugler não apresenta uma natureza idealizada. Ela cria uma espécie de natureza aumentada, em que organismos reais parecem ter passado por um processo de edição. É o inseto transformado em joia, a flor convertida em estrutura, a pena tratada como arquitetura e a pele animal reinterpretada como superfície têxtil.

Por isso, a coleção transita entre dois universos que tradicionalmente parecem opostos: o orgânico e o tecnológico. Há algo de futurista nessas criaturas, mesmo quando a referência original vem de uma flor ou de um animal.

Essa tensão também aproxima Freitas do próprio Thierry Mugler. O fundador nunca esteve particularmente interessado em separar natureza e ficção científica. Suas mulheres podiam ser simultaneamente humanas, super-heroínas e criaturas de outro planeta. O corpo era o lugar onde essas categorias se encontravam.

Thierry Mugler volta à primeira fila

Se a coleção já estabelece uma conversa direta com o fundador, o desfile encontrou uma maneira ainda mais literal de trazê-lo de volta.

Na primeira fila, ao lado de nomes como Catherine Deneuve, Shygirl e Law Roach, estava Alexis Stone. O artista britânico conhecido por suas transformações apareceu caracterizado como Manfred Thierry Mugler, reproduzindo seus traços de maneira quase fotográfica.

A presença tinha algo de desconcertante. Não era simplesmente uma homenagem ou uma celebridade usando uma peça de arquivo: era uma representação do próprio fundador sentado diante da coleção que revisita alguns de seus códigos mais conhecidos.

A imagem poderia facilmente cair no território da caricatura, mas ganha outro significado quando colocada ao lado do conceito de Naturalia X. Se a coleção fala sobre criaturas, transformação e identidade, Alexis Stone também aparece como alguém que transforma o próprio corpo em outra pessoa.

Trinta anos depois de “Les Insectes”

A referência a Les Insectes é provavelmente a conexão mais evidente entre o passado e o presente da maison.

O desfile de 1997 ficou marcado pela maneira como Thierry Mugler transformou o universo dos insetos em alta-costura, explorando estruturas, brilho, transparência e formas que pareciam pertencer a seres de outra dimensão. Para Freitas, revisitar essa coleção três décadas depois não significa simplesmente repetir suas imagens mais conhecidas.

Em Naturalia X, os insetos são apenas uma porta de entrada para uma investigação maior sobre o mundo natural. O que antes era uma coleção centrada em criaturas específicas, agora se expande para um ecossistema inteiro.

Ao escolher os “clichês” da própria Mugler como objeto de pesquisa, Miguel Castro Freitas não tenta fugir daquilo que o público espera da maison. Pelo contrário: ele identifica essas expectativas e as exagera até que deixem de ser apenas códigos reconhecíveis e se transformem novamente em algo estranho.

É uma conclusão coerente para a trilogia de Freitas e, talvez, uma das maneiras mais interessantes de manter Mugler fiel ao próprio legado sem transformá-lo em uma reprodução de arquivo. Afinal, se há algo que Thierry Mugler ensinou à moda, é que o corpo pode ser muito mais do que aquilo que a anatomia determina.

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Escrito por: Mayla Shiva | Editado por: Maria Clara Machado

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