Uma Saint Laurent de ouro: o dourado ilumina a Semana de Moda de Paris
Para a Primavera/Verão 2027, Anthony Vaccarello transforma os clássicos da maison em uma coleção de brilho absoluto, celebrando uma década à frente da Saint Laurent em Paris
Na noite de 29 de setembro, durante a Semana de Moda de Paris, o estilista belga Anthony Vaccarello e diretor criativo da Saint Laurent levou ao Trocadéro uma coleção que revisita alguns dos principais códigos da maison sob uma única luz: a do ouro.
Diante da Torre Eiffel iluminada, a apresentação aconteceu sob enormes lustres dourados, em uma cenografia que evocava os salões de alta-costura frequentados por Yves Saint Laurent.
A primeira modelo surgiu em uma combinação metálica de jaqueta utilitária e saia lápis, com uma faixa de tecido acompanhando o movimento do corpo. A partir dali, o dourado se repetiu por praticamente toda a coleção, aparecendo em diferentes acabamentos, pesos e texturas. Dos tons mais luminosos ao ouro envelhecido, a cor deixou de ser detalhe para se tornar a própria linguagem do desfile.



A escolha ganha ainda mais significado porque a apresentação marcou os dez anos de Vaccarello à frente da Saint Laurent. Desde sua chegada em 2016 o estilista construiu uma leitura bastante particular da sensualidade da marca, preservando elementos históricos de Yves Saint Laurent enquanto os aproximava de uma mulher mais contemporânea, marcada por ombros fortes, pernas à mostra, alfaiataria precisa e uma relação constante entre poder e erotismo.
O ouro como código da Saint Laurent
O dourado não foi escolhido apenas por seu impacto visual. A cor ocupa um lugar importante no imaginário de Yves Saint Laurent. O próprio fundador da maison já havia declarado seu apreço pelo tom, associando-o à luz e ao corpo feminino. Vaccarello parte desse legado, mas evita tratá-lo como uma referência pontual: ele cobre a coleção inteira com diferentes interpretações do metal.
Assim, o resultado está longe de ser uma sequência de tecidos metalizados iguais. O ouro aparece em lamê, brocados, jacquards, renda guipure, organza e até em látex revestido com folha metálica.



Há superfícies amassadas, acabamentos que lembram metal envelhecido, efeitos quase líquidos e construções que fazem a luz mudar conforme o corpo se movimenta. A textura, portanto, é o que impede a repetição cromática de se tornar monótona.
É também uma maneira de aproximar o prêt-à-porter da opulência da alta-costura. Grandes brincos, joias de aparência barroca, botões marcantes e acessórios trabalhados reforçam a ideia de uma mulher que não entra em cena para passar despercebida.



Nesse sentido, o dourado funciona menos como tendência e mais como atitude. Ele transforma qualquer peça em objeto de desejo e faz com que roupas tradicionalmente associadas ao cotidiano adquiram uma dimensão quase cerimonial.
O arquivo de Yves Saint Laurent sob uma nova luz
Vaccarello não precisou inventar uma nova Saint Laurent para construir a coleção. Em vez disso, voltou aos códigos que ajudaram a definir a casa.
As jaquetas sahariennes, os trench coats, as blusas fluidas, as saias envelope e as peças de alfaiataria aparecem ao longo do desfile, mas são submetidas à mesma transformação dourada.



É uma operação bastante característica do trabalho de Vaccarello: olhar para o arquivo sem reproduzi-lo literalmente. Na temporada anterior, o estilista havia concentrado sua atenção no Le Smoking, o icônico smoking feminino criado por Yves Saint Laurent em 1966. Para o verão 2027, a pesquisa se amplia e passa a contemplar um conjunto maior de peças que construíram a identidade da maison ao longo das décadas.
O resultado é uma espécie de inventário dourado da Saint Laurent. A casa aparece em suas várias facetas, da alfaiataria à sensualidade, do utilitário ao glamour, do guarda-roupa diurno às grandes roupas de noite.
Da alfaiataria à pele à mostra
Embora o dourado seja o elemento mais imediato da coleção, a silhueta continua sendo essencial para compreender o trabalho de Vaccarello.
As saias na altura dos joelhos aparecem com frequência, acompanhadas por jaquetas estruturadas, enquanto calças cigarette criam uma linha mais estreita e precisa. Em outras propostas, a cintura fica exposta por meio de tops muito curtos combinados a calças de alfaiataria e saias lápis, retomando uma sensualidade bastante associada à Saint Laurent dos anos 1990 e 2000.



Ao mesmo tempo, peças de aparência mais prática, como bombers, jaquetas safari e trench coats, recebem volumes maiores e são colocadas ao lado de tops boudoir e tecidos transparentes. A tensão entre o masculino e o feminino, portanto, permanece central: uma jaqueta pode ganhar proporções quase arquitetônicas enquanto a peça usada por baixo reduz a distância entre roupa e pele.



Essa combinação ajuda a explicar por que o dourado não transforma a coleção em fantasia de gala. Mesmo cobertos pelo brilho, os códigos de Vaccarello continuam reconhecíveis: a mulher Saint Laurent tem postura, estrutura e uma sensualidade que não depende de delicadeza.
Ao restringir a paleta praticamente a uma única cor, Vaccarello desloca a atenção para a construção das peças. É preciso olhar para o corte, para o acabamento, para o tecido e para a maneira como cada superfície captura a luz. Um mesmo dourado pode assumir uma aparência rígida em uma jaqueta, líquida em um vestido ou quase artesanal em uma renda.
Quando a exuberância do dourado dá lugar à opulência do preto
Dos 59 looks apresentados, 49 foram construídos integralmente em dourado. Os dez restantes formaram um bloco final completamente preto. A mudança acontece de maneira abrupta. Depois de quase toda a apresentação refletir a luz, o preto passa a absorvê-la.
Os últimos looks abandonam o brilho para apresentar vestidos pretos de grande volume, feitos de tecidos leves e transparentes que se expandem ao redor do corpo. O efeito é quase cinematográfico: mangas, laços e caudas criam uma massa de tecido que se movimenta com as modelos, fazendo com que o encerramento pareça mais próximo de uma cena de filme do que de uma sucessão convencional de roupas.



A escolha também estabelece um contraste importante com o restante do desfile. Dessa forma, se o ouro representa a luz, a exuberância e aquilo que permanece visível, o preto introduz sombra, silêncio e movimento.
Não por acaso, a apresentação terminou com uma performance de Charlotte Gainsbourg, presença recorrente no universo de Vaccarello. A atriz e cantora, que mantém uma relação próxima com o estilista e com a maison, apareceu para interpretar a música final enquanto as modelos encerravam o desfile.
A trilha e a própria atmosfera da noite acrescentaram uma camada emocional à apresentação. Antes do desfile, Vaccarello enviou aos convidados flores de copo-de-leite negras, acompanhadas de uma mensagem dizendo que aquela coleção estava em sua cabeça havia muito tempo e que era pessoal e carregada de emoção. Ele preferiu não conceder entrevistas e deixou que a coleção falasse por si.



Dez anos de Vaccarello
Existe ainda uma questão que atravessa a apresentação, mesmo sem ter sido oficialmente transformada em tema do desfile: o futuro de Anthony Vaccarello na Saint Laurent.
Rumores sobre uma possível saída do estilista circulavam antes da Semana de Moda de Paris e ganharam força diante da simbologia da apresentação. O desfile aconteceu exatamente dez anos depois de sua chegada à casa, e a combinação entre a mensagem pessoal, as flores negras, a retrospectiva dos códigos da maison e a apresentação final de Charlotte Gainsbourg fez com que parte da imprensa interpretasse a coleção como uma possível despedida. Até o momento da apresentação, porém, a Saint Laurent não havia confirmado oficialmente uma saída.
Independentemente de ser o encerramento ou não de seu ciclo, Vaccarello olha com brilho nos olhos para os elementos que definiram sua passagem pela casa sem abandonar aqueles que herdou de Yves Saint Laurent.
No fim, quando o dourado desaparece e o preto toma conta da passarela, sobra justamente aquilo que não depende apenas da cor: a silhueta, o gesto e a ideia de uma mulher que entra em cena sabendo exatamente o efeito que pretende causar.
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Escrito por: Mayla Shiva | Editado por: Maria Clara Machado


