estética anos 2000 dominou o K-pop
Moda

A estética anos 2000 dominou o K-Pop

Como essa indústria passou a formar grupos com a estética dos anos 2000 apostando no estilo vibrante e colorido da época.

Os anos 2000 voltaram com tudo nos últimos anos, principalmente após a pandemia. Tops curtos, calças de cintura baixa, acessórios brilhantes e estampas coloridas fazem parte dessa estética que fez história entre gerações e sempre está se reinventando. Do outro lado do mundo, na Coréia do Sul, existe a famosa indústria do K-Pop, conhecida por possuir elementos diferentes e marcantes dentro da música e da moda coreana, muitos deles vindos dos Estados Unidos. Entre eles, o pop e o hip-hop se destacam.

Porém, de uns tempos para cá, o K-Pop aderiu o estilo dos anos 2000, tanto em suas músicas quanto na moda. Por mais que grupos antes de 2019, como Girl’s Generation (SNSD) – grupo feminino formado em 2007 pela SM Entertainment –, utilizassem dessa estética, houve um aumento dos grupos que debutaram após 2020 e se basearam nesse conceito. Um dos principais é o NewJeans (2022), grupo feminino formado pela Ador, subsidiária da Hybe Corporation.

NewJeans – Reprodução/Atwood Magazine

O NewJeans debutou com um gênero musical fresh e pop e com looks formados por calças jeans, baby tees, camisetas largas e estampas coloridas. Nos lançamentos, aparecem muitos elementos dos anos 2000, como câmeras analógicas, celulares de botão, computadores, sites e jogos antigos e acessórios extravagantes. O design dos álbuns e das postagens do grupo também possuem essa estética, utilizando-se fontes pixeladas, cores neon e estilos de personagens da era citada.

Assim como o NewJeans, outros grupos passaram a usar a fórmula dos anos 2000, como o Illit (2024), o Hearts2Hearts (2025) e o KiiiKiii (2025). O Illit possui um conceito “garota mágica”, estilo de animação que fazia muito sucesso na época, com desenhos como Sailor Moon, Guerreiras de Rayearth e W.I.T.C.H. Já os outros dois grupos citados, também possuem o fresh e o pop como principais gêneros musicais e elementos visuais como dispositivos analógicos e acessórios coloridos.

KiiiKiii – Divulgação/Starship Entertainment

Os anos 2000 e a nostalgia

Atualmente, a nostalgia está presente em boa parte da nossa vida, seja no cinema, com remakes de filmes e séries, bem como na moda, com tendências voltando ao auge. Com a estética dos anos 2000 não foi diferente. Em um mundo pós-pandemia, a saudade por uma época em que tudo era esperançoso e que o futuro era algo mágico é previsível, geralmente entre os mais jovens. De acordo com a jornalista e criadora de conteúdos sobre K-Pop, Bianca Mariano, isso está cada vez mais óbvio. “Essa nostalgia pelos anos 2000 está sendo revisitada porque carrega uma identidade visual e cultural muito forte, que hoje pode ser reinterpretada, de diversas formas”.

Moka do Illit – Divulgação/Pinterest

Quanto a Érica Pagani, que é uma entusiasta do gênero pop coreano, a presença dos anos 2000 na indústria sul-corena vai além da saudade. “Nos anos 2000, estávamos no início do mundo digital, e todo mundo consumia a ‘mesma bolha’, o que aumentava o sentimento de pertencimento. Hoje em dia, existe uma diversidade de bolhas muito maior, com muita informação, muitos focos e interesses diferentes, o que torna mais difícil construir um sentimento de pertencimento coletivo”.

A indústria do K-Pop utilizou bastante do sentimento de nostalgia para chamar a atenção do público, inclusive, conseguindo criar um senso de identificação entre os consumidores do gênero. “Acho que o K-Pop aproveita isso tanto em termos de sonoridade quanto de conceitos visuais, e faz isso também como uma estratégia de marketing. Além de atrair o público mais jovem, ele consegue se conectar com o público mais velho por meio da nostalgia e da saudade de um período que essas pessoas já viveram”, afirma Érica.

NewsJeans Aesthetic – Divulgação/Huaban

Bianca também defende que o K-Pop se aproveita desse período para recuperar elementos e sonoridades da época, mas apresentando tudo com uma produção atual: “Acaba criando uma identificação com quem viveu os anos 2000 e, ao mesmo tempo, apresenta para uma geração mais nova esses itens como algo interessante e que merece ser revivido”. A utilização da nostalgia por essa indústria não é por acaso. Ela conseguiu crescer mundialmente, porque a saudade gera conexão com as pessoas que viveram e que queriam ter vivido naquela época.

O K-Pop e os Estados Unidos

Muito da estética dos anos 2000 deriva dos Estados Unidos. Celebridades, como o grupo feminino TLC, a Britney Spears e a Paris Hilton, e mídias, como as bonecas Bratz, Meninas Malvadas e As Patricinhas de Beverly Hills, são utilizados como referências para essa era. Diante disso, é possível notar que o K-Pop absorve bastante da cultura estadunidense, desde o hip-hop e R&B até a moda streetwear.

TLC – Reprodução/The Line of Best Fit

Érica considera que as empresas utilizam a estética e o estilo musical dos Estados Unidos nos anos 2000 para atrair o público: “Primeiro, os EUA têm grande influência cultural e econômica global, sendo amplamente admirados. Segundo, perceberam que, ao alcançar consumidores de outros países, poderiam aumentar seus lucros. Terceiro, ao exportarem o K-Pop – e também os doramas – expandiram sua cultura para outros lugares, transformando o K-Pop em uma ferramenta de soft power“.

Para Bianca, o K-Pop consegue criar uma linguagem que pode ser familiar para o público internacional ao incorporar a cultura pop estadunidense. “O que acontece é uma absorção e uma reformulação. Percebo justamente essa mistura: existem referências muito ocidentais, mas elas são apresentadas dentro de uma estética e de uma lógica de consumo muito próprias da cultura sul-coreana”.

Hearts2Hearts – Reprodução/Wonderland Magazine

Mesmo absorvendo a cultura ocidental, a indústria sul-coreana não abandona a sua autenticidade, assim conseguindo sempre atrair um novo público. “Isso mostra como a indústria pode utilizar referências ocidentais que despertam familiaridade e nostalgia, sem necessariamente abrir mão de uma identidade. Essa mistura também ajuda a conectar diferentes gerações de fãs e reforça a capacidade do K-Pop de transformar situações globais em algo novo”, finaliza a jornalista.

Resgatando o passado

A nostalgia e a saudade são sentimentos com pesos emocionais distintos, mas que se complementam. Ambas trazem de volta algo que, infelizmente, não volta mais: o passado. Em suma, é isso que o K-Pop faz. Ao recuperar elementos do passado, a indústria sul-coreana cria uma identidade visual fácil de ser reconhecida, gerando uma conexão e afinidade com fãs do mundo inteiro.

Bianca afirma que os anos 2000 ficou marcado por causa das grandes transformações na música, na moda e na tecnologia. “Era o início da popularização da internet, dos celulares e de uma cultura pop cada vez mais mundial. Hoje, esses elementos podem ser revisitados com uma perspectiva retrô, permitindo que o K-Pop resgate o passado sem tanto ‘estranhamento'”.

Anos 2000 Aesthetic – Divulgação/Huaban

No final das contas, uma estética que marcou tantas gerações, como os anos 2000, facilmente iria ser absorvida por diversas culturas e indústrias. A idealização do passado, principalmente pelos mais jovens, produz um sentimento de pertencimento e identificação, e a indústria sul-corena não deixou com que isso passasse batido; o K-Pop está levando para as pessoas a esperança e o conforto que ficou esquecido após os anos da virada do milênio.

Você quer saber mais sobre esses assuntos? Não deixe de conferir outros conteúdos disponíveis aqui no Fashionlismo e de ficar de olho nos próximos posts. Até mais!

Escrito por: Carla Emile | Editado por: Ana Carolina Gomes

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