De Zara a Shein: como a moda indica uma crise econômica mundial
A moda vai muito além do glamour; ela é política. Então, como o mundo fashion pode estar avisando a sociedade sobre uma crise econômica?
Tudo começa com um simples vídeo. Na tela do TikTok, o criador de conteúdo Giuliny Shauer, e fundador da marca “Shauer”, apontava algo que reparou em viagem recente para a França — capital da moda — e boa parte de quem acompanha moda vinha vendo, mas não tinha nome: a forma como as marcas se posicionam hoje denuncia uma crise econômica que não é só brasileira, mas mundial.
A partir desse ponto, foi necessário ir atrás de quem pensa na moda como termômetro social. Para isso, o produtor de conteúdo João Biondi, que soma anos analisando tendências na internet, e Marcelo Prado, consultor e diretor do IEMI – Inteligência de Mercado, ajudam a entender melhor: as roupas “médias” estão mesmo sumindo do guarda-roupa do brasileiro?
O caso Zara: do shopping à Trancoso
Em dezembro de 2025, a Zara abriu sua primeira pop-up no Brasil — não em um shopping center, mas no Quadrado de Trancoso, um dos endereços mais simbólicos do luxo nacional. A loja temporária, resultado de uma colaboração com o ilustrador brasileiro Filipe Jardim, ocupava apenas 40 m² e não tinha pretensão de gerar faturamento relevante para o grupo Inditex. Ela existiu para posicionamento de marca, no mesmo circuito de nomes como Osklen e PatBO.

E não parou por aí, em janeiro de 2026 a marca anunciou a chegada do designer John Galliano, um dos grandes nomes da alta-costura, como seu mais novo parceiro. Com um currículo que compõe Dior e Margiela, a chegada do profissional à gigante do varejo mostra não apenas mais uma estratégia da rede, mas uma evolução do momento atual da moda fast-fashion.
Colaborações e expansão reforçam a estratégia das gigantes da moda em frente à crise
Para João Biondi, esse movimento é revelador. Ele lembra que a Zara nunca foi, historicamente, uma marca que expõe preço nas vitrines. Ao contrário da Renner, que hoje aposta em comunicar fibras naturais e materiais “mais elaborados” para tentar reter um público que gosta de moda, mas não tem mais orçamento para comprar na concorrente espanhola. Sendo assim, abrir loja num destino como Trancoso e firmar parcerias renomadas, segundo ele, é uma forma da marca se aproximar de uma classe mais alta e se afastar simbolicamente da classe média — mesmo sem esperar lucro direto com a operação.
Marcelo Prado, do IEMI, discorda da leitura de que isso seja uma “migração para cima”. Para ele, trata-se de estratégia de criação de valor: coleções assinadas e produtos mais sofisticados servem para rejuvenescer a imagem da marca e atrair públicos mais amplos. Sem essas ações, afirma, redes de varejo “perdem valor, envelhecem e desaparecem”.

O fenômeno das parcerias entre marcas de nicho e redes populares também entra na conversa. Biondi cita a colaboração entre o designer de bolsas Alexandre Pavão e a Riachuelo, esgotada rapidamente, como um caso de sucesso comercial construído sobre anos de desejo represado nas redes sociais — um processo parecido com o que a Riachuelo fez com a Versace em 2014.
Mas ele faz uma ressalva importante: para o criador de conteúdo, esse tipo de collab democratiza o acesso ao nome da marca. “Não necessariamente à qualidade do produto, já que dificilmente o material vendido na rede popular é o mesmo da linha original”, afima.
O avanço da Shein e o fim do meio-termo
Do outro lado do espectro, a Shein segue crescendo mais rápido que qualquer concorrente. Segundo levantamento da consultoria GlobalData, a marca chinesa foi a que mais ganhou participação de mercado global no setor de vestuário em 2024, puxada por preços extremamente baixos e velocidade de adaptação às tendências. Um ano depois, dados de dezembro de 2025 mostram a Shein consolidada como líder isolada do mercado de moda de massa internacional, enquanto a fatia da Zara encolhia.
É esse movimento que, para Biondi, define o novo “índice” da crise. Ele recupera dois exemplos clássicos de economia comportamental. O primeiro é o Lipstick Index, criado nos anos 2000 por Leonard Lauder, então presidente da Estée Lauder, ao notar que as vendas de batom subiam em momentos de recessão. E também o índice das saias dos anos 1920, que associava saias mais curtas — e a consequente necessidade de comprar meia-calça, item caro à época — à confiança econômica das mulheres.
Hoje, argumenta o influenciador, o indicador seria a Shein. Seu crescimento mostra que consumidores que compravam em lojas de departamento há poucos anos migraram para o ultra fast fashion chinês, porque é o que cabe no orçamento.

Marcelo Prado pondera esse diagnóstico com dados. Segundo ele, os públicos B e C ainda respondem por quase 70% de todo o valor gasto com roupas no Brasil, e essa proporção não deve mudar na próxima geração. Na visão do consultor, o mercado brasileiro está “muito bem ajustado” ao perfil do consumidor local — o problema não seria o desaparecimento da classe média, mas a lentidão histórica de um país que cresce pouco e não melhora a distribuição de renda.
O lugar do luxo
A pressão não aparece só embaixo. De acordo com o Bain & Company, em parceria com a Altagamma, o mercado de luxo pessoal perdeu cerca de 20 milhões de consumidores ativos só em 2025, concentrados sobretudo entre compradores aspiracionais (aquele público que se endividava para ter uma peça de grife). O relatório aponta ainda que menos da metade das marcas de luxo pessoal cresceu em receita no último ano, com o setor a perder consumidores pelo segundo ano consecutivo.
É esse comprador que, segundo Biondi, sustentava historicamente as linhas de entrada das grifes — carteiras, tênis, perfumes — desde que o CEO da LVMH, Bernard Arnault, começou a popularizar essa estratégia nos anos 1980. Hoje, para ele, esse consumidor está endividado com aluguel e comida, não sobra espaço no orçamento para se endividar também com luxo. O resultado é o que o mercado vem chamando de Great Luxury Slowdown — a desaceleração das grifes que, segundo o próprio Bain, atravessa a pior turbulência do setor em pelo menos 15 anos.
Os brechós como resposta à crise econômica
Enquanto H&M, Zara e luxo se afastam, e a Shein cresce, os brechós vivem um momento de expansão histórica. Segundo dados do Boston Consulting Group citados pela Central do Varejo, roupas de segunda mão representavam 12% do vestuário nacional em 2024. Além disso, já estão com projeção de chegar a 20% em 2025 — um mercado estimado em R$ 24 bilhões. Levantamento do Sebrae já apontava, em 2023, mais de 118 mil brechós ativos no país, alta de quase 31% em cinco anos.

Para João Biondi, esse crescimento não é coincidência: é a resposta de um consumidor que descobre, depois de algumas lavagens, que as peças da Shein não têm durabilidade — e que não tem mais dinheiro para voltar a comprar na Zara. Dessa forma, o brechó aparece como o único espaço que ainda oferece design autoral, fora da lógica do algoritmo que, segundo ele, empurra as marcas para coleções “sem personalidade”, pensadas para agradar o maior número possível de pessoas — o que ele chama de “coleções quarto de hotel”.
Mesmo assim, a loja pop-up em Trancoso, o crescimento acelerado da Shein e a explosão dos brechós contam a mesma história por ângulos diferentes. A moda não cria a crise, mas é sempre uma das primeiras a mostrar seus sinais.
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Escrito por: Murilo Bezerra | Editado por: Maria Clara Machado


