Barbie e Edikted
Tendências

Barbie, moda e o corpo que continua sendo vendido

Mesmo após ampliar a representatividade de suas bonecas, o universo da Barbie continua sendo associado, em campanhas de moda, a um único padrão de beleza. O que isso revela sobre a forma como mulheres aprendem a enxergar seus corpos?

Foto: Coleção inspirada na Barbie | Reprodução: @edikted

Recentemente, a marca Edikted fez uma parceria com a Barbie, e lançou uma coleção de roupas lindas e fortemente inspirada na estética dos anos 2000. Com a tendência em alta entre a geração Z, as peças atraem não somente os fãs da Barbie, mas qualquer um que queira estar na moda. Mas o que chama a atenção, é a escolha das modelos que representam a coleção.  

A coleção Barbie X Edikted possui sim, uma grade de tamanhos variada. Entretanto, os corpos escolhidos para representar a campanha não representam todos os públicos. Afinal, como personagens infantis continuam influenciando nossa percepção feminina sobre corpo, pertencimento e estética?

Com sede em Los Angeles, a Edikted é uma marca influenciada pela cultura pop, tecnologia e estilo, e é conhecida por acompanhar as tendências consumidas pela Geração Z. Inspirando-se desde o streetwear até as tendências das passarelas, as curadorias da Edikted incluem peças essenciais do guarda-roupa, desde camisetas e regatas até vestidos com recortes.

Sobre a colaboração de Barbie x Edikted

A colaboração Barbie x Edikted é inspirada na era “Barbie Fashion Fever”, com alguns estilos criados pela apresentadora britânica de talk show Carly Simpson e McFly. Combinando esse mesmo estilo do início dos anos 2000 com o toque contemporâneo e a ousadia da Geração Z, a colaboração destaca toques de cor com estampas jovens e outros elementos que ainda remetem à marca Barbie. A coleção conta com 71 peças no total, desde roupas prontas para usar até acessórios que incluem óculos de sol, bolsas e joias, entre outros.

Desde o trailer que divulga a coleção, os desfiles e as fotos do catálogo, notamos um padrão: todas as modelos possuem corpos magros. A escolha não impede que mulheres de outros biotipos comprem as peças — a coleção, inclusive, oferece uma grade de tamanhos mais ampla. Ainda assim, ela levanta um questionamento importante: quais corpos são considerados dignos de representar a fantasia vendida pela campanha?

Fotos: Coleção inspirada na Barbie | Reprodução: @edikted

Universo cor de rosa

Durante décadas, o universo cor-de-rosa da Barbie foi associado a um padrão muito específico de feminilidade: mulheres brancas, loiras, magras e dentro de um ideal de beleza quase inalcançável. Nos últimos anos, a Barbie passou por um importante processo de ampliação da representatividade, apresentando diferentes tons de pele, tipos de cabelo, profissões e corpos. A campanha da Edikted, entretanto, parece dialogar com uma versão anterior desse imaginário, recuperando justamente o padrão de feminilidade que a própria marca vinha tentando ampliar.

Não é coincidência que essa campanha surja justamente em um momento em que a estética da magreza extrema volta a ocupar espaço nas redes sociais, nas passarelas e na cultura pop. Depois de anos em que a moda passou a discutir inclusão e diversidade corporal, observa-se um resgate dos ideais de beleza dos anos 2000, impulsionado pela nostalgia da estética Y2K e por celebridades que voltam a ocupar esse imaginário. Nesse contexto, a escolha de divulgar uma coleção inspirada na Barbie exclusivamente com modelos magras deixa de parecer apenas uma decisão estética: ela também dialoga com o padrão de beleza que volta a ser valorizado.

Barbie e padrões físicos

A Barbie não é apenas uma boneca. Ela é uma narrativa sobre o que significa ser mulher em cada época, e, inclusive, passou décadas tentando convencer o mundo de que havia espaço para diferentes mulheres em seu universo. Se hoje ela tenta representar diferentes corpos, por que tantas campanhas inspiradas nela continuam recorrendo ao mesmo padrão físico? Talvez porque a representatividade tenha chegado às prateleiras antes de chegar ao imaginário da moda. Quando uma colaboração celebra essa personagem sem abrir espaço para diferentes corpos, a pergunta permanece: quem pode, de fato, viver esse sonho cor-de-rosa?

A cultura pop nunca fala apenas sobre entretenimento. Ela também constrói imaginários, define pertencimentos e influencia a forma como nos enxergamos. Talvez seja por isso que discutir uma coleção inspirada na Barbie seja, na verdade, discutir como as referências da infância continuam moldando a percepção feminina sobre corpo, beleza e identidade, mesmo décadas depois de guardarmos nossas bonecas.

Colaboração de: Leticia Américo Camargo | Editado por: Flávia Pereira

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