Viktor&Rolf reflete sobre luxo, poder e desigualdade em seu novo desfile
A passarela da alta-costura sempre espera de Viktor Horsting e Rolf Snoeren uma boa dose de ironia, provocação e, acima de tudo, uma narrativa impecável. Para a temporada de outono 2026, a dupla holandesa não decepcionou ao apresentar sua mais nova coleção, intitulada Gilded Age 2.0.
O nome faz referência à chamada Gilded Age, período da história americana marcado pelo crescimento econômico mas também por profundas desigualdades sociais. Ao acrescentar o “2.0”, os designers transportam essa ideia para o presente, sugerindo que essa lógica continua mais atual do que nunca.
Na passarela, esse contraste ganha forma por meio do diálogo entre opulência e simplicidade, revelando que a principal mensagem da coleção está justamente na tensão entre aquilo que se vê e o que permanece escondido.

Entre a contenção e o excesso
O cenário do desfile transportou o público diretamente para a intimidade de um quarto, estruturado em um set circular. Nele, as modelos Nathalie Haerlemans e Elpida Voryas Georgiadi realizavam uma performance coreografada, na qual se vestiam e se despiam em perfeita sincronia, materializando o contraste entre extravagância e minimalismo.



Ao longo de 24 looks, a coleção se dividiu de maneira simétrica. De um lado, a simplicidade do linho natural, do algodão cru e da juta (uma escolha que os estilistas descreveram como uma representação das estruturas invisíveis que sustentam o “mundo dourado”).
Do outro lado, a opulência máxima traduzida em rendas florais laminadas a ouro, tecidos metalizados, organza com fios de lurex, brocados e bordados. A cada entrada, o desfile apresentava duas interpretações da mesma silhueta: uma mais simples e outra mais elaborada.

Quando a técnica supera o material
O ponto alto da coleção com certeza foi o cuidado técnico dedicado a cada look. Com um trabalho de alta-costura extremamente preciso, Viktor Horsting e Rolf Snoeren deram aos tecidos nobres e à simplicidade da juta a mesma força visual.
Onde havia franjas de contas douradas brilhando em um mini vestido de festa, havia também um trabalho minucioso de desfiar as bordas dos tecidos mais rústicos para alcançar o mesmo efeito de movimento.


Rosas tridimensionais e nós franceses foram replicados fielmente nas duas texturas, mostrando que a complexidade do trabalho artesanal vai além do valor do material utilizado.

O último ato
O ponto alto da apresentação veio no encerramento do desfile, momento que concentrou a principal mensagem da coleção e dominou as discussões da crítica de moda. Uma das modelos carregava a palavra restraint (contenção), confeccionada em juta, enquanto a outra vestia a versão dourada com a palavra decadence (decadência).



O contraste entre os materiais e as duas propostas reforçava a crítica de Viktor & Rolf à chamada nova Era Dourada, em que riqueza, visibilidade e espetáculo dominam a superfície, enquanto a desigualdade permanece como a estrutura invisível que sustenta esse cenário.
Com Gilded Age 2.0, a grife reafirmou seu papel de questionadora do sistema da moda, entregando uma coleção tecnicamente impecável que flutua confortavelmente no espaço instável entre o espetáculo e a substância.
Entre simplicidade e exuberância, a dupla construiu uma coleção que ultrapassa o impacto visual e reafirma a alta-costura como um espaço de experimentação, crítica e narrativa.
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Escrito por Victória Parente I Editado por Ana Carolina Gomes


