A polêmica da Planet Girls quando o público não é o esperado
Dizem que o brilho das estrelas que vemos no céu vem da explosão de sua morte, ocorrida anos-luz no passado. Mas a Planet Girls é uma estrela que continua viva, brilhando no passado e no presente. A questão é: ela está iluminando o público certo?
Se você não conhece a Planet Girls, a marca foi criada em 1997 por Adriana Restum. Seus valores sempre estiveram ligados ao empoderamento feminino e à presença das mulheres em um mercado historicamente dominado por homens. Seu auge aconteceu nos anos 2000, com peças icônicas como as jaquetas dupla face e os jeans cintura baixa modeladores.
Apesar de ter sido pensada para um público mais próximo do estereótipo das “patricinhas”, a marca conquistou principalmente meninas e mulheres da periferia, que ficaram conhecidas como “planetárias”. Foram elas que transformaram a Planet Girls em um fenômeno de consumo e identidade.

Fotos: Pinterest/dhplanetUma nova Planet Girl assume o comando
Em 2020, Adriana Restum passou o comando da marca para sua filha, Isabelle Restum, com o objetivo de aproximá-la das novas gerações e construir uma nova visão para a empresa. A mudança fazia parte de uma estratégia de reposicionamento, buscando dialogar com outros públicos.

No entanto, essa decisão gerou debates nas redes sociais. Um dos episódios mais comentados envolveu a influenciadora Luana Maia, que ajudou a trazer a Planet Girls de volta às conversas da internet. Mesmo dando visibilidade à marca, ela nunca recebeu reconhecimento por parte da empresa, algo que muitos internautas associaram ao fato de não representar a imagem que as fundadoras desejavam transmitir. O resultado foi uma onda de críticas e questionamentos.
Mas essa discussão vai além de um caso isolado. Ela levanta uma questão importante sobre posicionamento de marca. Muitas empresas confundem posicionamento com público. Posicionamento está relacionado aos valores e à mensagem que a marca quer transmitir. Público é quem se identifica com essa mensagem. E nem sempre quem consome uma marca é exatamente quem seus criadores imaginaram.
A importância de se conectar com novos públicos
Talvez o desafio da Planet Girls não seja mudar de consumidoras, mas encontrar formas de expandir seu alcance sem negar a própria história. Em vez de tentar se desvincular de um grupo, a marca poderia investir em novos pontos de venda, campanhas específicas ou coleções direcionadas para diferentes perfis de clientes.
Essa situação também revela algo comum no mercado da moda. Muitas vezes, quando uma marca se populariza entre pessoas da periferia, parte da elite deixa de consumi-la por ela já não representar exclusividade. É um movimento que acontece há décadas. Tendências criadas ou popularizadas por MCs, artistas e influenciadores periféricos frequentemente alcançam enorme sucesso, mas também acabam sendo vistas com resistência por quem busca se diferenciar através do consumo.
O curioso é que, em muitos casos, são justamente esses grupos que geram mais visibilidade, engajamento e lucro para as marcas. Ainda assim, algumas empresas insistem em se afastar dessa associação para preservar uma imagem aspiracional.

No fim, a história da Planet Girls mostra que uma marca não é construída apenas por seus criadores, mas também pelas pessoas que a adotam como parte de sua identidade. Talvez o verdadeiro desafio não seja escolher entre periferia e elite, mas entender que o sucesso de uma marca está justamente na capacidade de dialogar com diferentes públicos sem apagar aqueles que ajudaram a fazê-la brilhar.
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Escrito por: Caue Ferreira | Editado por: Maria Clara Machado


