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Da moda ao futebol: o papel das camisas das seleções na construção da identidade nacional

Nos últimos anos, as camisas das seleções deixaram de ser vistas apenas como uniformes esportivos para se consolidarem como símbolos de identidade nacional, memória e pertencimento. Cada vez mais, federações e marcas incorporam elementos da história, da cultura, da arte e das tradições locais ao design das peças, transformando-as em narrativas visuais que representam seus países dentro e fora dos gramados.

O fenômeno desperta o interesse não apenas de torcedores, mas também de consumidores de moda e especialistas em design, evidenciando como o futebol pode funcionar como uma ferramenta de construção e reafirmação da identidade nacional por meio da linguagem visual.

As camisas das seleções deixaram de ser apenas uniformes 

Stuart Hall define identidade como algo que é formado regularmente pelas experiências, pela cultura e pela forma que nos relacionamos com os outros. A diferença nos faz distinguir que não somos. Já o pertencimento também é construído culturalmente, porque depende dos significados compartilhados em uma cultura (seja ela numa família, grupo étnico, profissão, etc.), pois ele é resultado de memórias coletivas, tradições, símbolos, linguagem e práticas culturais. Ou seja, não é uma condição inata ou geográfica.

Algumas seleções têm colocado a sua cultura e identidade nas últimas coleções de suas roupas. Isso também é um movimento de marcas esportivas, que estão colocando símbolos culturais nas fardas dos jogadores, o que desperta interesse não somente entre torcedores, mas também entre colecionadores dos “mantos” e entre pessoas ligadas à moda. Para quem acompanha de perto esse mercado, essa valorização da identidade cultural não acontece por acaso. 

Entrevistei Gustavo Góes, da loja no Instagram Universo dos Mantos, que me contou como elementos inspirados na história, na arte e nas tradições locais passaram a ocupar espaços nos uniformes das seleções. Isso reforçou a conexão entre o futebol e o sentimento de pertencimento, além de carregar referências que ajudam a contar a história dos países que representam.

O design das camisas das seleções representa a cultura de um país 

Jarina: Na sua experiência, quais seleções conseguem representar melhor a identidade e a cultura de seus países por meio do design das camisas? O que faz esses uniformes se destacarem? As seleções africanas, de uma forma geral. 

Gustavo: Pegando uma amostragem mais recente, a exemplo das últimas Copas disputadas, eu diria Senegal, Gana e Marrocos. São camisas carregadas de cultura, que trazem, sempre, sem exceção, elementos que remetem à arte local, valorizando muito as suas raízes.

Consumidores compram apenas pelo design ou pela história? 

Jarina: Você percebe que os consumidores buscam uma camisa apenas pela beleza do design ou existe um interesse crescente pela história e pelos símbolos presentes em cada uniforme?

Gustavo: Há muitas razões pelas quais um consumidor busca uma camisa específica mas, para um consumidor comum, não necessariamente os nossos, a história certamente é um dos motivos menos influenciáveis, muito porque a maioria nem sequer tem essas informações.

Nosso papel nesse cenário é justamente este: trazer conteúdos de valor sobre um produto físico (as camisas de time) para que as pessoas saibam exatamente o que representa aquilo que está sendo comprado/vestido. Vai muito além de uma peça de roupa, tem a ver com cultura e identificação. É o nosso compromisso.

Referências culturais fortalecem a identidade nacional ou são estratégia de marketing? 

Jarina: Nos últimos anos, as marcas passaram a incorporar referências culturais, artísticas e históricas nas camisas das seleções. Você acredita que isso fortalece a identidade nacional ou é, principalmente, uma estratégia de marketing? 

Gustavo: Na minha visão essa estratégia é extremamente positiva, pois, sim, fortalece a identidade nacional, mas vai além: reforça os laços com sua torcida. Trazer referências históricas trazem uma ideia de pertencimento àqueles que estão vestindo a camisa, o que reforça a paixão dos torcedores. O marketing existe, obviamente, mas o vejo como uma consequência.

Como equilibrar tradição e inovação no design das camisas? 

Jarina: Como você enxerga o equilíbrio entre preservar elementos tradicionais das seleções e inovar no design para atender às tendências e ao mercado global? 

Gustavo: Hoje temos visto um grande choque visual nas camisas de time, que repercutiu bastante nessa Copa. Apesar da repercussão dentro do nicho futebolístico ser majoritariamente negativa, eu acredito que seja uma iniciativa muito importante, pois atinge públicos de gerações diferentes.

O importante, na minha opinião, é justamente o equilíbrio, que é o que temos visto, por exemplo, entre camisas “Home” e “Away” de algumas seleções, como Uruguai, Colômbia, Alemanha, e colocaria até mesmo o Brasil nessa lista. Camisas principais mais “tradicionais”, e camisas “reservas” mais ousadas.

Obs: Camisa “Home” é a camisa titular ou principal da seleção, já a camisa “Away” é a camisa reserva, usada principalmente quando há conflito de cor com o adversário.

As camisas das seleções são símbolos de identidade nacional 

Independente das tendências ou de atender às estratégias de mercado, o design das camisas das seleções revela como o futebol também comunica identidade. Cores, grafismos, referências históricas e elementos da cultura local transformam cada uniforme em uma narrativa visual capaz de representar um país dentro e fora de campo.

Sob a perspectiva de Stuart Hall, esses símbolos ajudam a construir sentidos de pertencimento, já que a identidade é formada por experiências, memórias e referências culturais compartilhadas. Ao vestir uma camisa de seleção, torcedores e jogadores não carregam apenas as cores nacionais, mas também histórias, tradições e formas de reconhecimento coletivo.

Em um cenário em que as camisas conquistam espaço não apenas entre torcedores, mas também na moda e no colecionismo, o desafio das marcas é equilibrar inovação e tradição. Quando esse equilíbrio acontece, o uniforme deixa de ser apenas um item esportivo e se consolida como um dos principais símbolos visuais da identidade nacional.

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Escrito por Jarina Milena I Editado por Ana Carolina Gomes 

Graduada em Audiovisual, Redatora, Cientista Social e Fotógrafa gótica e indie, ama escrever, criar e estar sempre antenada ao universo da moda, cinema e cultura. Enxerga a moda como comunicação, expressão e vínculo social, utilizando-a como ferramenta para transmitir sentimentos, reflexões e questionamentos no cotidiano. Criativa e observadora, gosta de unir senso crítico, estética e autenticidade em tudo o que faz. Também ama um sorvete de casquinha mista, viajar e sair da rotina sempre que possível.

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