Samira Sagr e o estilo Y2K no BBB 26: como a estética dos anos 2000 conquista a geração Z
Em meio às estratégias de jogo do Big Brother Brasil 26, um outro elemento tem chamado atenção do público: o estilo de Samira Sagr. Com looks que resgatam a estética Y2K, marcada por mini saias, blusas croppeds e acessórios coloridos, a participante transforma o reality em uma vitrine de tendências que dialogam diretamente com a geração Z.

A repercussão não se limita à televisão. Nas redes sociais, os visuais de Samira viralizam e reforçam o retorno de códigos estéticos dos anos 2000, agora reinterpretados por uma nova geração.
O que define o estilo Y2K de Samira Sagr
O estilo de Samira Sagr no BBB 26 se apoia em elementos clássicos do Y2K: silhuetas ajustadas, cintura baixa, sobreposições e uma paleta vibrante. Esses itens, que marcaram a moda do início dos anos 2000, retornam como tendência impulsionada principalmente por plataformas como TikTok e Pinterest.

De acordo com análises da FFW e da Capricho, o revival Y2K está diretamente ligado à forma como a geração Z ressignifica o passado, misturando nostalgia com uma vibe experimental.
Especialistas explicam o retorno da tendência
Para a especialista em tendências, comportamento e pesquisadora de moda e consumo Thays Ramos, o sucesso do estilo de Samira não acontece por acaso:
“A identificação acontece porque o estilo de uma participante funciona como um código visual imediato. No caso da Samira, a estética dela gera conexão por ser uma mistura de autenticidade e acessibilidade. O público não vê apenas uma ‘roupa de televisão’, ele vê peças que reconhece das redes sociais, dos brechós e de plataformas como a Shein. Isso quebra a barreira entre o ídolo e o espectador”, explica Thays.
Continuando a conversa com Thays Ramos, fiz uma série de perguntas para a pesquisadora, a fim de me aprofundar no estilo de Samira e no impacto cultural que ela tem para os espectadores da geração Z.
Jarina: A Geração Z costuma valorizar autenticidade e identidade visual. Como isso aparece na relação com figuras da cultura pop?
Thays: A relação da Geração Z com a cultura pop é marcada por um paradoxo. De um lado, existe uma busca incessante por autenticidade, de outro, vivemos uma homogeneização estética sem precedentes. Diferente dos anos 2000, quando figuras como a Britney Spears, pavimentada pelo legado da Madonna, atingiram o ápice do que uma ‘diva pop’ poderia ser em termos de impacto visual e cultural, hoje as estéticas parecem mais fragmentadas.
Vemos exemplos com identidades bem marcadas, como a Sabrina Carpenter ou o visual mais teatral de Chappell Roan, mas o sentimento geral é de que estamos em uma era de grandes reboots. Parece que o espaço para o ‘novo’ está cada vez menor, talvez porque o excesso de referências digitais nos faz reciclar o passado em vez de criar algo do zero.
É por isso que o estilo da Samira ressoa tanto, a equipe dela e a própria participante bebem diretamente na fonte da ‘Princesa do Pop’. Ao usar essa estética, ela não está apenas se vestindo, ela está evocando um arquétipo de estrelato que a geração dela admira, mas que sente falta na música atual.

Esse movimento de ‘redescoberta’ é constante. Vimos a Gen Z abraçar a elegância atemporal da Sade há pouco tempo, por exemplo. Isso mostra que os jovens hoje funcionam como curadores de museu, eles buscam no passado o que falta no presente, autenticidade e uma identidade visual que não pareça processada pelo mesmo filtro de sempre. A Samira representa essa geração que prefere o brilho e a energia de 2000 ao minimalismo asfixiante de 2024, por exemplo. É uma forma de dizer que, mesmo em um mundo de simulações, ainda queremos o impacto de uma figura pop real.
Jarina: A moda pode funcionar como um elemento de pertencimento geracional? De que forma?
Thays: Com certeza. A moda é, talvez, o registro de identidade mais imediato que temos. Historicamente, essa ruptura geracional se consolidou nos anos 60 com o surgimento do prêt-à-porter e o uso de tecidos sintéticos. Foi ali que o vestir deixou de sinalizar apenas a classe social para sinalizar a idade. Pela primeira vez, o jovem não queria mais se parecer com o pai ou com a mãe, ele queria se apartar dessa figura autoritária.
Vimos isso em movimentos musicais muito claros, o Punk no fim dos 70, o Grunge nos 90 e o Emo nos 2000. No entanto, hoje vivemos uma mudança de lógica. O que antes eram subculturas duradouras, agora são os ‘cores‘. Essas microestéticas, como o Cottage Core ou Office Siren, ciclam muito mais rápido. Alguns estudiosos falam até na extinção dessa lógica de pertencimento de longo prazo, porque tudo é muito volátil.



O grande motor dessa democratização (e da aceleração) é o ultra fast fashion. Plataformas como a Shein, onde a própria Samira consome, encurtaram o timing de chegada das tendências. Há 20 anos, para uma tendência de fora chegar ao Brasil, demorava meses, até mesmo anos. Hoje, o acesso é em real time. Se uma estética viraliza no TikTok de manhã, ela está disponível para compra à tarde e chega na casa do jovem em poucos dias.
Isso criou um cenário onde o pertencimento geracional não é mais sobre ‘quem eu sou para sempre’, mas sobre ‘em qual tribo digital eu estou agora’. É uma moda de alto impacto, acessível e extremamente visual, que serve como o uniforme perfeito para uma geração que constrói sua identidade em frente às câmeras.
Jarina: Reality shows como o BBB ainda funcionam como espaço de representação de diferentes estilos e gerações?
Thays: O BBB passou por ciclos de seleção muito claros. No início, havia uma tentativa de diversidade que depois se perdeu em um padrão de ‘olheiros de festas’, focando em estéticas muito homogêneas. No entanto, nos últimos anos, o programa entendeu que a audiência exige espelhamento. A edição de 2023, com o elenco mais negro da história, foi um marco necessário em um país onde mais de 50% da população se identifica como preta ou parda.
Jarina: Reality shows como o BBB ainda funcionam como espaço de representação de diferentes estilos e gerações?
Thays: O BBB passou por ciclos de seleção muito claros. No início, havia uma tentativa de diversidade que depois se perdeu em um padrão de ‘olheiros de festas’, focando em estéticas muito homogêneas. No entanto, nos últimos anos, o programa entendeu que a audiência exige espelhamento. A edição de 2023, com o elenco mais negro da história, foi um marco necessário em um país onde mais de 50% da população se identifica como preta ou parda.
Essa mudança impacta diretamente na moda que vemos na tela. Quando o programa seleciona pessoas de diferentes regiões, como o Norte (que ainda carece de mais espaço) ou o Sul, ele traz bagagens culturais distintas. O estilo da Samira é um exemplo perfeito disso. Ela é uma menina do interior do Rio Grande do Sul que vive no litoral catarinense e trabalha com festas. O visual dela carrega essa energia solar e noturna ao mesmo tempo.

Em contraste, temos participantes como a Milena, que mesmo com idade próxima, apresenta uma estética completamente diferente, influenciada por sua vivência e até por sua trajetória religiosa.

A moda no reality funciona como um registro dessa transição de vida. Para muitas participantes, o programa é o momento em que se permitem experimentar novas identidades visuais, saindo de bolhas mais conservadoras para um palco de exposição total. Ter diferentes gerações, como os veteranos acima dos 40 e 50 anos convivendo com os vinte e poucos da Samira, cria um atrito estético riquíssimo.
É nesse contraste entre as botas de cano alto da Samira e os brincos da marca da Marciele que o público encontra seus pontos de pertencimento. O BBB não dita mais uma moda única, ele exibe um mosaico de “Brasis” que, finalmente, estão começando a aparecer com mais cor e verdade.
Moda, identidade e pertencimento na geração Z
Mas o que o estilo de Samira Sagr revela para além da tendência? Para entender como essa estética se conecta com comportamento, consumo e construção de identidade na geração Z, continuamos nossa conversa com a pesquisadora Thays Ramos:
Jarina: O estilo da Samira tem sido associado à estética Y2K. Quais elementos dessa tendência aparecem nos looks dela?
Thays: O closet da Samira é um excelente estudo de caso sobre a nostalgia do início dos anos 2000. A estética Y2K aparece nela não como uma fantasia caricata, mas como uma releitura que funciona muito bem nos dias de hoje.
O primeiro elemento marcante é a proporção da silhueta, composta pelo combo de minissaias e croppeds. Essa exposição da pele, muitas vezes aliada à cintura baixa, é o DNA visual dos anos 2000. Outra mistura característica é o colete de alfaiataria usado como top, que segue essa ideia de pele mais à mostra, mas é uma combinação que garante o status de ‘it girl’ pra ela.
Outro ponto fundamental é o calçado. A presença constante dos tamancos reforça essa identidade. O tamanco plataforma é um dos maiores símbolos dessa década e, nos looks da Samira, ele ganha um peso visual que equilibra a leveza das peças curtas.

Por fim, temos a influência do ‘Cowgirl Core’, que se manifesta no uso de chapéus country e botas de cano médio. Esse mix de referências ocidentais com o pop dos anos 2000 cria uma estética de festival que funciona muito bem no dia a dia. É um estilo que sinaliza confiança e um entendimento claro de como transformar microtendências em uma marca pessoal reconhecível.
Jarina: Por que a moda dos anos 2000 voltou a ganhar força entre os jovens nos últimos anos?
Thays: A volta dos anos 2000, ou o fenômeno Y2K, responde à clássica regra de que a moda se renova em ciclos de 20 anos, período em que uma geração atinge a maturidade e passa a idealizar a estética da sua infância ou do período em que nasceu. Isso vem mudando, como disse Jorge Grimberg recentemente em um “3 minutos de moda”, e esse ciclo de 20 anos está cada vez mais ‘achatado’.
Pensando nisso, podemos olhar para movimentos recentes como a estética Brat, que consolidou o retorno de uma energia mais caótica e noturna. O ‘verde iPod’, a cultura clubber e a volta do Indie Sleaze (aquele visual ‘sujinho’ e despretensioso do final dos anos 2000/início dos 2010’s).

Para jovens como a Samira, essa estética não é sobre nostalgia literal, mas sobre uma busca por autenticidade através do imperfeito. Enquanto o Y2K clássico foca na silhueta, o componente Brat/Indie Sleaze adiciona a camada do comportamento, é a moda que não tem medo de parecer ‘errada’ ou excessiva.
Um motor fundamental para esse retorno é o comportamento da Geração Z em relação à sustentabilidade e aos brechós. O ‘garimpo’ transformou peças que antes eram consideradas datadas em itens exclusivos e marcadores de autenticidade.
É nesse cenário que surgem diferenciações interessantes, como vemos no fenômeno das ‘fubangas’ no TikTok, um versão BR dessa estética Y2k, como bem fala a Ágatha nesse vídeo. Ela é um bom exemplo de menina da geração Z que encontrou uma forma autêntica de se expressar buscando referências em décadas passadas.
Existe também uma face mais complexa desse retorno. A volta da cintura baixa e das silhuetas mínimas traz consigo o debate sobre o corpo como um ‘asset’. Em um mundo de exposição constante, o padrão de magreza extrema muitas vezes ressurge atrelado a essas roupas, sugerindo que certas peças exigem um tipo físico específico. É uma estética de alto impacto que, embora celebrada pela liberdade visual, também tensiona a relação com a imagem corporal em um momento de extrema vigilância digital.
Jarina: Você acredita que o estilo da Samira ajuda a representar visualmente uma geração mais jovem dentro do BBB?
Thays: Sim, mas é preciso entender que a Geração Z é extremamente fragmentada em termos de identidade visual. Enquanto uma parte das jovens mergulhou no minimalismo das clean girls ou na sobriedade do quiet luxury, e outra fatia prefere o romantismo das estéticas coquette ou cottagecore, a Samira aparece como um contraponto vibrante. Ela não é básica.
O estilo dela representa a parcela da juventude que usa a moda de forma experimental e, acima de tudo, otimista. Essa estética Y2K que ela adota, com cores saturadas e shapes mais ousados, remete a uma época em que o futuro parecia mais promissor.
Para uma geração que, antes dos 20 anos, já enfrentou uma pandemia global e acompanha o eclodir de conflitos como as guerras na Ucrânia e em Israel, existe um apelo emocional muito forte em resgatar o visual de uma era pré-policrise.
O estilo da Samira é um ‘sopro de novidade’ dentro do programa. Ao fugir do óbvio, ela valida a ideia de que a moda pode ser um refúgio de autoexpressão e diversão em tempos de incerteza. Ela não se veste apenas para ser vista, mas para afirmar uma identidade que é, ao mesmo tempo, nostálgica e muito corajosa diante do cenário atual. É o visual de quem quer ocupar espaço e não passar despercebida, algo que ressoa profundamente com quem busca autenticidade em meio a estéticas tão padronizadas pelos algoritmos.
Jarina: Como a moda pode funcionar como forma de identidade, expressão e pertencimento dessa geração?
Thays: A moda é, em sua essência, um dos pilares da construção da identidade humana. Se voltarmos na história, veremos que ela nasceu como proteção e ritual, evoluindo depois para um marcador de distinção de classe social. No entanto, há muito tempo a moda se tornou o principal canal de expressão da subjetividade, especialmente para os jovens.
É por isso que é tão raro um jovem se sentir confortável com a ideia de um uniforme, por exemplo, que por definição, é algo que tenta apagar a individualidade, enquanto o jovem está no auge do processo de descobrir quem é.
Para a Geração Z, a moda funciona como um registro de idade e de pertencimento a ‘tribos digitais’. Através de escolhas como as da Samira, o vestir deixa de ser apenas sobre estética e passa a ser sobre dizer ao mundo em que valores você acredita. Quando ela escolhe uma estética Y2K solar e experimental, ela está se apartando da seriedade excessiva das gerações anteriores e afirmando uma identidade que valoriza o otimismo e a diversidade.
Hoje, com a velocidade do ultra fast fashion e das redes sociais, esse pertencimento é fluido. O jovem pode transitar entre diferentes ‘cores’ ou estéticas, mas o objetivo final é sempre o mesmo: não ser invisível. A moda é o que permite que essa geração se sinta parte de algo maior, como uma comunidade global que compartilha as mesmas referências pop, ao mesmo tempo em que garante que cada indivíduo mantenha sua marca pessoal única.
O olhar do público: identificação e admiração
Para fãs do programa, o estilo de Samira também funciona como admiração e identificação. O Internacionalista e Estudante de Ciências Socioambientais na UFMG Igor Fernandes, de 25 anos, ou seja, pertencente à gen z, nos conta um pouco do motivo do seu afeto pela participante Samira Sagr:

Jarina: O que você acha do estilo da Samira dentro do BBB?
Igor: Acho o estilo dela bem único, bem it girl. As saia curtas são muito uma marca dela. Sem falar nas botas brancas também.
Jarina: Você se identifica com as roupas ou referências de moda que ela usa? Por quê?
Igor: Eu me identifico com as roupas porque sinto uma vibe bem pop dela, vibe pop star teen 2010.
Jarina: Você acha que o estilo dela representa algo da Geração Z?
Igor: Acho que o estilo dela representa o que a geração Z faz muito, que é de ressuscitar alguns estilos antigos, mas ainda sim com um toque dela. Acho bem legal.
Jarina: O estilo de um participante influencia a forma como você acompanha ou torce no programa?
Igor: Não, sou mais pela vibe da pessoa e como a pessoa se comporta/está presente no jogo.
Mais do que tendência, uma linguagem geracional
O sucesso do estilo Y2K de Samira Sagr no Big Brother Brasil 26 reforça um movimento maior, no qual a moda está como ferramenta de expressão da geração Z.
Mais do que resgatar o passado, Samira atualiza referências e transforma o vestir em narrativa. Em um ambiente onde tudo é observado, o estilo também se torna estratégia, e, nesse aspecto, Samira já conquistou seu espaço dentro e fora do reality.
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Escrito por Jarina Milena I Editado por Ana Carolina Gomes


