The Rocky Horror Picture Show - Clássico do cinema queer
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Por que o horror é tão queer? A influência do cinema na moda e na sociedade

Os mais assustadores monstros do audiovisual podem ser interpretados de várias formas, e uma delas é a forma como estão diretamente ligados aos menos privilegiados e marginalizados. Muitos deles — ou uma maioria esmagadora — são uma alegoria ao queer.

Os temíveis monstros da Universal Studios foram, durante anos, motivo dos pesadelos das crianças; eram criaturas com uma aparência diferente, remendada, monstruosa. Eram capazes de causar desconforto até em pessoas adultas, e estavam fora da realidade de qualquer um.

Esses monstros, muitas vezes, estão em busca de aceitação, como o Monstro de Frankenstein e o Monstro da Lagoa Negra, que, em seus filmes, foram retratados buscando uma maneira de serem aceitos pela sociedade que constantemente os rejeitava.

Além disso, Conde Drácula e O Lobisomem têm subtextos homoeróticos, talvez como parte de sua essência devido à época de sua criação ou como forma de assustar aquela população, que não conseguia aceitar algo desconhecido. Assim, era impossível não criar uma identificação com essas criaturas, por conta de suas filosofias e de seus simbolismos implícitos.

Pontuar todas as características dessas obras e o que fazem delas alegorias duraria mais do que apenas um texto. Todavia, é importante relembrar que, em todos os momentos, a comunidade LGBTQIA+ sempre esteve em busca de representações, seja em monstros ou em pequenas referências que apenas a comunidade reconheceria. 

The Rocky Horror Picture Show - Clássico do cinema queer
The Rocky Horror Picture Show“, lançado em 1975, e até hoje visto como um dos principais filmes do Horror Queer. Foto: Pinterest.

O queer no horror ao longo dos séculos

Um exemplo do lobisomem como subtexto queer está presente em “It – A Coisa”, obra de Stephen King, quando Richie Tozier precisa lutar contra seu próprio medo. Apesar de ser apresentado como um temor infantil, alguns interpretam como uma alegoria da bissexualidade, entre ‘homem’ e monstro. Enquanto isso, Eddie Kaspbrak, do mesmo livro, demonstra um carinho romântico por Richie, o que se soma às zombarias que Pennywise dirige a ele, chamando-o de menino afeminado’.

Mas por quais razões essas interpretações são pertinentes nessas obras? Realmente é necessário forçar uma inclusão? Não, ao contrário disso, essas representações sempre estiveram presentes para os que queriam interpretar dessa forma. Um claro exemplo é o personagem Drácula e seu homoerotismo com Jonathan Harker.

Por anos, os filmes de horror colocaram personagens da comunidade LGBTQIA+ como “vilões” em suas obras. Desde o icônico Norman Bates, em “Psicose”, até Buffalo Bill em “O Silêncio dos Inocentes”, criou-se no imaginário a ideia de uma maldade intrínseca em pessoas que se identificam como queer.

Porém, acima de qualquer coisa, é importante buscar o significado desses personagens e do subtexto em que foram escritos e interpretados. No cinema, ainda que sem a delicadeza de um ator da comunidade LGBTQIA+, essas histórias são partes importantes do universo cinematográfico e literário queer.

Pennywise aparece para Eddie Kaspbrak segurando balões em formato de triângulo invertido, como eram feitas as marcações em campos de concentração nazistas. Foto: Pinterest.

Por que a representatividade no cinema importa?

Mas o que é isso? Por qual razão estamos andando em círculos explicando alegorias e subtextos em livros, filmes e séries? O significado de queer é “estranho”, “peculiar”, “excêntrico” ou “esquisito”. Essa palavra, que foi introduzida na língua inglesa no século XVI como uma ofensa, permaneceu marginalizada até ter sua ressignificação em 1980 por ativistas da comunidade.

Entretanto, essa representação negativa é utilizada até os dias de hoje. Personagens queer são colocados como criaturas obscuras, representando aquilo que é desprezado pela sociedade.

Mas até onde nós, como pessoas queer, somos vistos apenas como criaturas? Até que ponto nossa existência é ignorada ou jogada de escanteio? Tal qual esses “monstros“, estamos em busca de aceitação e inclusão dentro de uma sociedade que despreza nossa identidade. Atualmente, ainda mais do que antes, temos que resistir, como fizeram antes de nós.

Nossos pensamentos filosóficos e humanitários sobrevivem por anos, perduram até que sejam repassados através dos séculos. Robert Louis Stevenson, Bram Stoker, Mary Shelley e Oscar Wilde foram responsáveis por algumas das criações mais importantes da literatura LGBTQIA+, enquanto aqueles que tentam silenciar essas vozes caem em desgraça e são esquecidos. 

A moda em ‘The Rocky Horror Picture Show’

A moda sempre esteve intrínseca ao universo terrível dos monstros. Eles não apenas ensinaram que sua individualidade deve ser celebrada, apesar das dores sentidas pelo caminho, mas também que devemos fazer isso com looks icônicos.

Apesar dos pouquíssimos recursos disponibilizados para produções de horror, ainda podemos encontrar os figurinos mais elaborados da história do cinema. E não apenas no horror: o suspense e a fantasia também são envoltos em uma atmosfera sombria e quase claustrofóbica.

A libertação humana manifestada nos cenários do horror é algo que acompanhamos em todos os filmes, especialmente os mais fantasiosos, com criaturas sombrias como vampiros, bruxas e lobisomens. Além das sequências bem construídas, também é necessário encarar tudo o que foi elaborado pelos diretores e produtores com um olhar mais fashion.

Em uma recente entrevista celebrando os cinquenta anos de “The Rocky Horror Picture Show”, Tim Curry conta algo que define a genialidade do trabalho além da interpretação: o icônico corset vitoriano de Frank N’ Furter foi, na verdade, um achado da figurinista Sue Blane em um brechó. O toque final, no entanto, veio de um erro, quando Curry vestiu a peça ao contrário, com a amarração posterior voltada para a frente.

O figurino que conta a história

A indumentária usada pelos atores é uma extensão da história e da personalidade do personagem que a conta. Um exemplo impecável desse pensamento é “Frankenstein”, de Guillermo Del Toro. As peças de Elizabeth, interpretada por Mia Goth, não são apenas trajes de época, mas composições inspiradas na anatomia e coloração de insetos.

Tippi Hedren, em “Os Pássaros”, eternizou o tailleur verde menta que era semelhante aos originais da Chanel, transformando a fragilidade da personagem em um ponto importante. Similarmente, o vestido branco e as bandagens de Elsa Lanchester ressignificam o luto e a ressurreição, elevando uma criatura trágica ao status de ícone fashion atemporal.

Elsa Lanchester, Tippi Hedren e Tim Curry. Fotos: Pinterest.

Essas são algumas das peças que viraram parte importante do cinema. Mas, para além delas, temos “Drácula de Bram Stoker”, com um mix de tecidos e estampas, sem deixar de prestar atenção à época em que a história se passa. Da mesma forma, “Garota Infernal” e “Jovens Bruxas” transformaram o horror dos anos 2000 em moda.

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Escrito por: Katherinie Macelli | Editado por: Maria Clara Machado

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