Quando os opostos se atraem, o horror da coleção fw26 na Alexander McQueen é lindo
Quinze anos após a morte de Lee Alexander McQueen, a marca Alexander McQueen enfrenta o desafio de manter seu fôlego cultural dentro de uma indústria que mudou significativamente desde o seu auge.
A fama de fascínio pelo horror nas coleções de Alexander McQueen é um dos elementos mais marcantes de sua trajetória na moda. Desde o início de sua carreira, o designer construiu desfiles que exploravam temas sombrios, macabros e psicológicos, transformando o medo, a morte e o grotesco em linguagem estética. Para McQueen, o horror era uma forma de investigar emoções humanas profundas, como sofrimento, violência, poder e vulnerabilidade e muitos de seus desfiles ficaram conhecidos justamente por essa capacidade de misturar beleza e desconforto.

Apresentada durante a última Semana de Moda de Paris, a coleção Outono/Inverno 2026 da marca marcou um momento importante na consolidação do atual diretor criativo, Seán McGirr.
Ainda que o fundador, permaneça como um nome quase sagrado na moda e um dos raros designers cuja personalidade e história criaram uma conexão real com o público, a geração que vestiu suas famosas calças “bumster” envelheceu e se afastou da moda baseada no choque e o nome McQueen exerce, hoje, menos fascínio sobre consumidores mais jovens. Talvez, justamente por isso, a adversidade combine com a identidade da marca, que sempre explorou um glamour fatalista e dramático. Depois de temporadas ainda sob constante comparação com o legado do fundador, Seán McGirr apresenta um desfile que envolve um glamour mais íntimo, mesmo que revisitando o DNA da casa, mas sem tentar replicar o que foi a famosa era McQueen. E funcionou.

A beleza está nos olhos de quem vê?
Para o McGirr talvez, para o público com certeza, por isso estamos todos fascinados.
A coleção coloca o espectador diante de imagens que oscilam entre o atraente e o inquietante, sugerindo que a beleza não está apenas naquilo que é tradicionalmente harmonioso, mas também no desconforto, o clássico da casa.
Segundo Julia Kristeva, , filósofa, psicanalista e teórica literária, a experiência estética muitas vezes se constrói a partir do que ela chama de abjeto, ou seja, aquilo que perturba, causa estranhamento ou desafia os limites do que consideramos aceitável ou belo. Em Powers of Horror, a autora argumenta que o abjeto produz simultaneamente repulsa e fascínio, colocando o observador em um estado de tensão emocional.

Essa ideia ajuda a compreender a estética frequentemente associada às coleções da Alexander McQueen. No desfile apresentado por Seán McGirr, a beleza não aparece apenas na harmonia das formas, mas também na melancolia e no estranhamento que atravessam a coleção. Assim, o espectador é convidado a encontrar beleza justamente no limiar entre atração e desconforto.
O ambiente do desfile intensifica esse conceito quando o público se vê obrigado à indisposição. Com cortinas translúcidas e uma iluminação quente criou-se uma atmosfera quase claustrofóbica, como se o telespectador observasse personagens em um espaço privado (lê-se no darkroom da balada). Esse cenário sugeriu a ideia central do desfile: o voyeurismo, um jogo sexual entre performance e observação. Nesse contexto, os modelos desfilam enquanto quem assiste obtém prazer (ou horror) no próprio ato de observar.
A coleção explorou temas como identidade, desejo, exposição e teatralidade social, dialogando com a cultura da imagem e com a maneira como o corpo é apresentado e, constantemente observado, no mundo contemporâneo. Em vez do espetáculo grandioso frequentemente associado à história da marca, McGirr optou por algo mais contido e emocional, um tipo de glamour melancólico que muitos críticos descreveram como profundamente londrino.
A construção do corpo
Nas roupas, a coleção reforçou dois pilares históricos da casa: a alfaiataria britânica e a dramatização do corpo. Blazers estruturados de tweed e herringbone abriram o desfile, com ombros marcados e silhuetas alongadas que evocavam a tradição da alfaiataria inglesa. Essas peças estabeleceram uma base sólida e relativamente clássica para a coleção.

Em contraste, surgiram vestidos de renda estruturados por corsets aparentes, revelando uma dimensão de fragilidade e as saias adicionaram um elemento romântico,

A sensualidade aparece de forma mais sutil do que em outras temporadas da casa. Harnesses e detalhes estruturais surgiam discretamente em calças e vestidos, introduzindo uma dimensão erótica sem recorrer ao fetichismo explícito. Essa dualidade, força e vulnerabilidade, controle e exposição, atravessou toda a coleção.

A direção de beleza e maquiagem destacou olhos escuros e dramáticos, levemente borrados, sugerindo um glamour vivido, como se os personagens da coleção emergissem de uma longa noite na cidade e para sobreviver a mais um dia, precisassem de máscaras. O resultado foi um beauty look menos performático e mais psicológico, reforçando a atmosfera de vulnerabilidade e introspecção, que também é horror. E nos levando a questionar: o belo acaba quando o feio começa? Porque nós estamos cansadas e o único jeito disso não transparecer no rosto é cobrindo-o.

Quem não é visto não é lembrado
O desfile foi interpretado por parte da crítica como um momento em que McGirr tenta reconciliar o legado dramático de Alexander McQueen com uma estética mais jovem e influenciada pela cultura rave. Embora a coleção não buscasse reproduzir o espetáculo associado ao fundador, referências ao arquivo da marca estavam presentes. Ecos de coleções históricas, como Widows of Culloden, surgiam reinterpretados em capas e na construção das silhuetas.

Ainda assim, a abordagem de McGirr se distancia da teatralidade que tornou a casa famosa nos anos 1990 e 2000. Em vez de apostar no choque visual, a coleção construiu sua força através da atmosfera e da tensão psicológica.
Com a coleção FW26, a Alexander McQueen parece conseguir se mostrar em sua nova fase. Se o legado da casa sempre foi explorar os limites entre beleza e horror, McGirr demonstra que esses limites ainda podem ser investigados, agora através de um olhar mais sutil, mas sem perder o drama.
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Escrito por Júlia de Moura I Editado por Ana Carolina Gomes


