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Entre o consumo e a consciência: a moda circular funciona mesmo?

O consumo de moda circular aponta para o futuro da indústria da moda ou se trata apenas de uma tendência passageira impulsionada por crises econômicas, redes sociais e transformações geracionais?

A indústria da moda foi estruturada historicamente em um modelo linear de produção: produzir, consumir e descartar. Esse sistema, intensificado nas últimas décadas com o avanço do fast fashion, ampliou o acesso às roupas, mas também trouxe consequências ambientais significativas, como o aumento do desperdício têxtil e da poluição gerada pela cadeia produtiva.

Diante desse cenário, cresce o debate sobre a chamada “moda circular”, um conceito que propõe prolongar o ciclo de vida das peças por meio de práticas como reutilização, revenda, aluguel e reciclagem de materiais. No entanto, especialistas apontam que ainda existe um desafio importante: entender até que ponto essas práticas representam uma mudança estrutural no setor ou apenas novas estratégias dentro do mesmo modelo de consumo.

Nesse contexto, o mercado de roupas de segunda mão tem chamado atenção pelo ritmo acelerado de crescimento. Segundo o relatório global de revenda da empresa ThredUp, o mercado mundial de moda usada movimentou cerca de US$ 197 bilhões em 2023 e pode alcançar US$ 367 bilhões até 2029, mantendo uma taxa de crescimento superior à da indústria tradicional de vestuário.

Os dados indicam que o setor de revenda cresce cerca de cinco vezes mais rápido que o mercado de roupas novas, refletindo mudanças no comportamento dos consumidores em diferentes regiões do mundo.

Parte dessa transformação está relacionada a momentos de instabilidade econômica. Historicamente, períodos de crise influenciam diretamente os padrões de consumo. Após a crise financeira global de 2008, por exemplo, consumidores passaram a buscar alternativas mais acessíveis, o que impulsionou o crescimento de brechós e mercados de revenda.

Esse movimento voltou a ganhar força durante a pandemia de Covid-19. A redução do poder de compra e as mudanças nos hábitos de consumo estimularam a busca por opções mais baratas, ao mesmo tempo em que plataformas digitais ampliaram o acesso ao comércio de roupas usadas.

De acordo com o Relatório Global de Revenda (Resale Report) da empresa ThredUp, elaborado em parceria com a consultoria de dados de varejo GlobalData, 59% dos consumidores afirmam que recorreriam ao mercado de segunda mão caso o preço das roupas novas aumentasse, especialmente em contextos de inflação ou mudanças econômicas que encarecem o vestuário.

O estudo, baseado em uma pesquisa com mais de 3 mil consumidores adultos, indica que fatores econômicos continuam sendo um dos principais motivadores para a compra de roupas usadas.

Outra edição do mesmo relatório também aponta que 60% dos consumidores afirmam que comprar roupas de segunda mão oferece melhor custo-benefício, enquanto 55% dizem que aumentariam esse tipo de consumo caso a situação econômica não melhorasse.

Diante desse cenário, permanece uma questão central para o futuro do setor: o consumo de segunda mão representa uma transformação real rumo à sustentabilidade ou apenas uma adaptação do mercado diante de novas demandas econômicas e culturais?

As necessidades de consumo da geração Z

O debate sobre a circularidade na moda ainda está em construção, mas o crescimento da revenda indica que novas formas de consumo já começam a redefinir a relação entre produção, uso e descarte na indústria do vestuário.

Além da questão financeira, mudanças culturais também influenciam o crescimento do mercado de segunda mão. Entre consumidores mais jovens, especialmente millennials e integrantes da geração Z, o consumo de peças usadas tem sido cada vez mais associado a valores como sustentabilidade, originalidade e redução de impactos ambientais.

Uma pesquisa da ThredUp, em parceria com a GlobalData, mostra que cerca de 62% da geração Z e dos millennials afirmam buscar opções de moda mais sustentáveis, e o mercado de revenda aparece como uma das alternativas mais acessíveis para reduzir o impacto ambiental do consumo de roupas.

Outro estudo realizado pela First Insight em parceria com a Wharton School of the University of Pennsylvania também aponta que os consumidores da geração Z são significativamente mais propensos do que outras gerações a comprar produtos considerados sustentáveis, incluindo roupas usadas ou reaproveitadas.

Redes sociais e plataformas digitais também desempenham um papel importante nesse processo. Brechós online, aplicativos de revenda e influenciadores digitais contribuíram para transformar o second hand (segunda mão) em um mercado globalizado e socialmente mais aceito.

Segundo relatório da McKinsey & Company, em parceria com a Business of Fashion, a popularização de plataformas digitais de revenda e a influência das redes sociais ajudaram a normalizar o consumo de roupas usadas, especialmente entre consumidores mais jovens que valorizam autenticidade e individualidade no estilo.

Apesar desse crescimento expressivo, especialistas alertam que o avanço da revenda não significa necessariamente que a indústria da moda tenha se tornado circular. O mercado de segunda mão continua coexistindo com a produção massiva de roupas novas, especialmente dentro do modelo de fast fashion, que ainda domina a cadeia produtiva global.

Um relatório da Ellen MacArthur Foundation destaca que, embora iniciativas de revenda e reutilização estejam crescendo, menos de 1% das roupas produzidas globalmente são recicladas para a fabricação de novas peças, indicando que o sistema da moda ainda opera majoritariamente dentro de um modelo linear de produção e descarte.

Diante dessa discussão, nos deparamos com iniciativas já existentes no Brasil que propagam a circularidade na prática, reduzindo impactos socioambientais e ao mesmo tempo gerando renda. Embora o modelo linear baseado em produzir, consumir e descartar ainda predomine na indústria da moda, diferentes iniciativas vêm demonstrando que alternativas circulares começam a ganhar espaço no mercado.

Entre essas práticas, destacam-se modelos como revenda de roupas, upcycling, sistemas de troca entre consumidores e plataformas digitais especializadas, que ampliam o ciclo de vida das peças e transformam o consumo de moda.

Revenda: o crescimento dos brechós e da moda de segunda mão

Um dos exemplos mais visíveis da circularidade na moda é o crescimento do mercado de revenda de roupas usadas, tanto em brechós físicos quanto em plataformas online. Nos últimos anos, esse modelo tem atraído novos consumidores, investimentos e até o interesse de grandes varejistas.

Segundo levantamento citado pela revista CartaCapital, mais de 50% dos consumidores da geração Z já compraram peças de segunda mão e pretendem continuar consumindo esse tipo de produto, o que demonstra uma mudança importante nos hábitos de consumo das gerações mais jovens.

No Brasil, brechós especializados também passaram a ocupar um espaço relevante nesse mercado. Um exemplo é o Peça Rara Brechó, rede que começou como um brechó físico e se expandiu por meio de franquias, consolidando um modelo de negócio baseado na revenda de roupas e acessórios usados. Além de ampliar a circulação de peças, o modelo também gera renda para consumidores que podem vender itens que já não utilizam.

Foto: Reprodução/Site Peça Rara Brechó

Upcycling: criatividade e valor agregado

Outra estratégia associada à moda circular é o upcycling, prática que consiste em transformar peças descartadas ou materiais têxteis em novos produtos com maior valor agregado. Diferentemente da reciclagem tradicional, o processo busca preservar o material original e explorar seu potencial criativo.

No Brasil, diversas marcas independentes têm incorporado essa abordagem em seus processos de criação. Entre elas estão a marca Dorgas e a marca Ventana, que utilizam roupas descartadas, tecidos excedentes e peças vintage para criar novas coleções. Nesse modelo, o resíduo deixa de ser considerado lixo e passa a ser entendido como matéria-prima para novas criações.

Além de reduzir o desperdício têxtil, o upcycling também fortalece a economia criativa, incentivando a produção local e valorizando processos artesanais.

Foto: Instagram/@dorgas

Foto: Instagram/@ventana

Troca entre consumidores

Outro modelo que vem ganhando visibilidade dentro da lógica da moda circular é o sistema de troca direta entre consumidores, conhecido como modelo peer-to-peer. Nesse formato, peças que não são mais utilizadas por uma pessoa podem ser trocadas com outras, prolongando seu ciclo de vida sem necessariamente envolver transações financeiras.

No Brasil, iniciativas como a Sharetti têm buscado estruturar esse tipo de prática. É um aplicativo de troca, no qual você adquire produtos sem gastar dinheiro. Os usuários incluem seus produtos na plataforma e os itens ficam disponíveis para que outras pessoas troquem por pontos. 

Além da economia financeira para os participantes, esse modelo também promove benefícios sociais ao incentivar a colaboração entre consumidores e reduzir o volume de descarte de roupas.

Foto: Instagram/@shareitt

Plataformas digitais e o novo mercado da moda circular

O avanço das tecnologias digitais também tem desempenhado um papel fundamental na expansão do mercado de segunda mão. Marketplaces, aplicativos e sistemas baseados em algoritmos passaram a facilitar a compra, venda e troca de peças usadas.

De acordo com análises publicadas pelo portal FashionNetwork, plataformas digitais vêm contribuindo para redefinir a relação entre consumidores e o conceito de propriedade, tornando mais comum a circulação de produtos entre diferentes usuários.

No Brasil, empresas como Repassa e Enjoei são exemplos desse movimento. Ambas atuam como marketplaces de moda de segunda mão, conectando vendedores e compradores em todo o país e ampliando o acesso a esse tipo de consumo.

Essas plataformas também demonstram como a tecnologia pode ampliar o alcance da economia circular, permitindo que peças antes esquecidas no guarda-roupa voltem a circular no mercado.

Foto: Reprodução/Site Enjoei

Foto: Reprodução/Site Repassa

Empreender na circularidade: os desafios por trás do mercado de segunda mão

Além dos dados de mercado e das mudanças no comportamento do consumidor, especialistas e empreendedores do setor destacam que transformar a moda circular em um negócio viável ainda envolve diversos desafios estruturais.

Um dos exemplos é a rede de brechós Peça Rara Brechó, considerada uma das maiores franquias de moda de segunda mão do Brasil. O negócio começou há quase duas décadas, em um período em que o consumo de roupas usadas ainda enfrentava forte resistência cultural.

A jornalista e pesquisadora Larissa Toblu, autora desta reportagem e correspondente na Moda.com, teve a oportunidade de entrevistar Bruna Vasconi, CEO da rede Peça Rara, para o programa Rede Toblu, que aborda moda, sustentabilidade e suas conexões com diferentes universos culturais, sociais e econômicos.

Na entrevista, a executiva explicou que consolidar um negócio baseado na revenda de roupas exigiu superar barreiras culturais e construir confiança entre consumidores e fornecedores de peças.

Segundo Vasconi, o maior desafio esteve justamente na mudança de mentalidade em torno do consumo de segunda mão: “Nosso maior desafio, e eu costumo dizer que empreender é uma soma de pequenos desafios diários, foi principalmente no início do negócio. Há 18 anos ainda existia muito preconceito e resistência na compra de peças de segunda mão. Não era algo usual, muito menos um hábito consolidado. Ao mesmo tempo, também havia o desafio de acesso aos itens, de convencer as pessoas a fornecerem peças para que pudéssemos vender”.

A executiva destaca que, no processo de consolidação da empresa, foi preciso resiliência e dedicação constantes, já que o modelo de brechó envolve tanto a lógica do varejo quanto a dinâmica de serviços e da economia circular.

“Empreender realmente requer muita resiliência, muita dedicação e, principalmente, muito trabalho. Acabamos sendo, ao mesmo tempo, um serviço, um negócio de varejo e uma iniciativa dentro da economia circular. São vários fatores que, somados, resultam em um trabalho que, se não houver muita dedicação, o sucesso realmente não acontece”, afirma Vasconi.

Consumo
Foto: Reprodução/Acervo pessoal

Para especialistas em moda sustentável, exemplos como o do Peça Rara demonstram que a circularidade na moda não depende apenas da mudança no comportamento do consumidor, mas também da construção de modelos de negócios capazes de tornarem essas práticas economicamente viáveis.

Apesar do crescimento de iniciativas de revenda, troca e reaproveitamento de roupas, a circularidade na moda ainda enfrenta um paradoxo. Enquanto brechós, plataformas digitais e marcas independentes demonstram que é possível prolongar o ciclo de vida das peças e reduzir impactos ambientais, a indústria global do vestuário continua operando majoritariamente dentro de um modelo baseado na produção em massa e no consumo acelerado.

Especialistas da Ellen MacArthur Foundation apontam que, embora o debate sobre economia circular tenha avançado nos últimos anos, a maior parte das roupas produzidas no mundo ainda segue o mesmo destino: uso por um curto período de tempo e descarte precoce. Nesse cenário, iniciativas de segunda mão e modelos circulares representam avanços importantes, mas ainda insuficientes para transformar estruturalmente toda a cadeia produtiva.

Ao mesmo tempo, exemplos como o da rede Peça Rara Brechó, plataformas digitais de revenda e marcas que trabalham com upcycling mostram que novas formas de consumo começam a ganhar espaço e desafiar antigos paradigmas da indústria da moda.

O que está em jogo, portanto, não é apenas a popularização de brechós ou aplicativos de revenda, mas uma mudança mais profunda na forma como a sociedade se relaciona com as roupas: da lógica da substituição constante para a valorização do uso prolongado, da reutilização e da circulação de produtos.

Nesse contexto, a pergunta que orienta o debate permanece aberta: a moda circular conseguirá transformar estruturalmente a indústria ou continuará sendo apenas uma alternativa paralela dentro de um sistema ainda dominado pelo fast fashion?

A resposta pode depender menos das tendências de mercado e mais de uma mudança coletiva que envolve consumidores, empresas e políticas públicas sobre quanto vale, de fato, uma peça de roupa em um mundo que precisa reaprender a consumir. 

Leia mais sobre moda, beleza e cultura pop no Fashionlismo.

Escrito por: Larissa Toblu | Editado por: Maria Clara Machado

Fontes:

ThredUp; GlobalData. 2025 Resale Report. Relatório anual sobre o mercado global de revenda de moda.

ThredUp; GlobalData. 2024 Resale Report. Estudo sobre crescimento do mercado de segunda mão e projeções para a indústria fashion.
Pesquisa internacional sobre comportamento do consumidor e mercado de revenda de moda.

McKinsey & Company; The Business of Fashion. The State of Fashion Report. Relatório anual sobre tendências e desafios estruturais da indústria da moda.

Ellen MacArthur Foundation. A New Textiles Economy. Estudo sobre economia circular e impacto ambiental da indústria têxtil.

First Insight; Wharton School of the University of Pennsylvania. Consumer Spending Report. Relatório sobre comportamento de consumo e sustentabilidade.

Entrevista com Bruna Vasconi, CEO da rede Peça Rara Brechó: “O que há de inovação na moda de segunda mão: Peça Rara”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=JDxKMmQ4QAU

GlobalData. GlobalData Consumer Survey. 

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