A luz da distopia de Rick Owens: o caminho para o fim do mundo da coleção Fall/Winter 2026 é o tapete vermelho
É como diz o ditado: “Quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve”. E se para Rick Owens o caminho é uma identidade estética extremamente definida e que segue um trajeto de expansão para a luz, sem perder a coerência, é para lá que eu vou!
Em um momento em que muitas marcas parecem diluir suas linguagens para atender a mercados diversos, Owens segue fazendo, por anos, o oposto: aprofundando o próprio universo enquanto amplia suas possibilidades de uso. E quanto mais ele cava, mais claro fica.

O designer apresentou sua coleção Fall/Winter 2026 em Paris nesta temporada, intitulada “Tower”. Segundo as notas da marca, a coleção foi pensada como “uma oração por amor, esperança, força e proteção”. E, de fato, apesar do universo visual frequentemente associado ao peso e à escuridão, havia ao final do desfile uma sensação sutil de otimismo.
Embora a paleta característica de Owens raramente mude, ancorada em pretos, cinzas e tons terrosos, nesta temporada surgiu um pouco mais de luz, especialmente nos looks de cabelo e beleza, que suavizaram a severidade das silhuetas sem diminuir sua presença dramática.

A ideia de uma “oração por esperança” dentro de um imaginário estético distópico revela uma das tensões mais interessantes do trabalho de Owens: a capacidade de produzir beleza, e até glamour, a partir de uma estética associada ao fim do mundo.
O gótico está para todos
É justamente nesse ponto que a coleção Fall/Winter 2026 se torna particularmente instigante, pois ela sugere não apenas continuidade estética, mas também uma expansão do território simbólico da marca. A maneira como a coleção equilibra o imaginário sombrio que sempre definiu a marca com uma oferta de diálogo para ocasiões associadas a códigos clássicos da moda, como o tapete vermelho, pode ser vista como um refinamento estratégico que vem sendo desenvolvido pelo designer ao longo dos últimos dois anos.
Historicamente, Owens construiu sua reputação com uma estética que mistura gótico, brutalismo e sensualidade. Silhuetas alongadas, drapeados dramáticos, botas monumentais e casacos estruturados continuam presentes nesta coleção. No entanto, entre essas peças surge uma nova ênfase em vestidos coluna, estruturas mais limpas e construções que, sem abandonar o drama característico, parecem prontas para um contexto de visibilidade midiática, em premiações e eventos de gala.
Esse movimento não é exatamente uma concessão à indústria do entretenimento, mas uma ampliação natural do vocabulário do designer. Ao invés de suavizar sua estética para se adequar ao tapete vermelho, Owens parece fazer o inverso: leva o próprio universo para esse território. O resultado são vestidos que preservam o peso, a paleta e a atitude brutalista da marca, mas que ainda assim funcionam dentro da lógica mais “refinada”.
O glamour da distopia
Na Rick Owens Fall/Winter 2026 Ready-to-Wear, Owens mantém a construção arquitetônica que se tornou uma assinatura de seu trabalho. A confecção das peças reforça a ideia de roupa-escultura, já que muitas delas parecem menos “costuradas” e mais drapeadas, moldadas ou envolvidas ao redor do corpo, criando volumes dramáticos e silhuetas alongadas.


Os drapeados são um dos principais recursos técnicos da coleção. Em vestidos e túnicas, grandes painéis de tecido são torcidos ou puxados de forma estratégica, criando pregas que descem pelo corpo como colunas. Esse tipo de construção, recorrente no trabalho do designer, produz uma silhueta que mistura austeridade e sensualidade, rígida de longe, mas orgânica quando vista em movimento.

Outro destaque são os casacos monumentais, muitas vezes confeccionados em materiais pesados, como lã espessa ou superfícies felpudas que lembram pele. A modelagem amplia drasticamente os ombros e o volume do tronco, fazendo com que as peças quase engulam o corpo das modelos. Sendo uma espécie de armadura têxtil, reforçando o imaginário pós-apocalíptico que permeia o universo da marca.


Nos vestidos mais ajustados aparecem tecidos mais fluidos e maleáveis, que permitem um deslizamento dramático pelo corpo. Em alguns casos, superfícies levemente brilhantes ou texturizadas criam um contraste com a paleta predominantemente escura, composta por pretos, cinzas, tons terrosos e cores queimadas.

A apresentação na passarela reforçou essa atmosfera. As modelos surgiram em fila, com passos firmes, cerimoniais, vestindo botas altas e plataformas pesadas que amplificaram a presença das silhuetas. O efeito coletivo lembrava uma espécie de procissão futurista: figuras alongadas, envoltas em volumes dramáticos, atravessando o espaço como personagens de um ritual. Nada mais Rick Owens que esse cenário distópico.

O modo de apresentação escolhido também ajuda a revelar a lógica da construção das roupas. Conforme as modelos caminham, os drapeados se movem, os casacos balançam e os tecidos pesados criam uma sensação de peso e presença física. Uma experiência visual que continua definindo sua linguagem estética, mesmo em novos territórios.

Todos os caminhos levam a Rick Owens
O que torna a coleção especialmente eficaz é justamente sua capacidade de operar em dois registros simultâneos. As roupas funcionam tanto dentro do imaginário noturno e subterrâneo que consagrou o designer quanto em momentos de holofotes tradicionais. Em outras palavras, elas continuam sendo profundamente Owens, mesmo se avistadas em novos locais.
Tal equilíbrio revela uma maturidade interessante na trajetória da marca. Em vez de simplesmente repetir fórmulas, Owens demonstra estar interessado em testar os limites do próprio universo.
Assim, quando a identidade de uma marca é clara e consistente, ela pode atravessar diferentes cenários sem se descaracterizar. No caso de Rick Owens, isso significa criar roupas que continuam ressoando com sua comunidade mais devota, os góticos e amantes do dark glamour, enquanto encontram lugar também nos momentos de “luz”.


É uma expansão silenciosa, mas estratégica. E, por enquanto, parece funcionar muito bem tanto na escuridão dos clubes quanto sob as luzes intensas de um tapete vermelho. Porque afinal, para o designer, não é todo caminho que serve, pois ele sabe exatamente para onde vai.
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Escrito por: Júlia de Moura | Editado por: Maria Clara Machado


