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Chanel Primavera/Verão 2027: como Matthieu Blazy reinventa os clássicos da maison 

A marca Chanel desfilou ontem (05/10) sua coleção de primavera/verão 2027, no Grand Palais, na Paris Fashion Week. Foi o terceiro desfile de Matthieu Blazy para a maison, no qual o diretor criativo da grife está construindo uma nova narrativa para a Chanel, sem tentar apagar a tradição visual da grife.

Os pássaros na cenografia

Matthieu Blazy teve a ideia de colocar 95 pássaros grandes e iluminados suspensos sobre a passarela. A ideia surgiu após observar aves em migração quando estava em viagem na Itália. Nesse sentido, essa cenografia pode ser interpretada como uma metáfora para a liberdade, transformação e movimento. 

O conceito dos pássaros remete à uma inversão simbólica: uma das campanhas mais famosas da Chanel nos anos 1990 mostrava Vanessa Paradis dentro de uma gaiola; agora, os pássaros estão livres, voando sobre a passarela. É uma forma de ressignificar o imaginário da marca e introduzir, dessa forma, uma das principais ideias da coleção: a liberdade como parte da história da Chanel. 

Das roupas restritivas à liberdade de movimento

A ideia aparece primeiro na própria construção das roupas. Para esta coleção, Blazy partiu de diferentes momentos da vida de Gabrielle “Coco” Chanel, especialmente da relação da estilista com as roupas restritivas do início do século XX. A coleção foi apresentada sob o conceito La Conversation – Part Three: Different Faces of the Same Coin, explorando as diferentes mulheres que existiram dentro de Gabrielle ao longo de sua vida.

O primeiro look já estabelece essa conversa com o passado: um vestido branco, transparente e de aparência leve, com uma construção que remete ao corset, acompanhado pela própria bolsa 2.55 de Gabrielle Chanel, retirada dos arquivos da maison.

Em seguida, o desfile passa por diferentes interpretações do guarda-roupa Chanel. A alfaiataria aparece em versões mais masculinas, com casacos, coletes e saias de cintura baixa. Os tradicionais conjuntos de saia e jaqueta também ganham novas proporções, enquanto peças de jersey, lingerie aparente, transparências e vestidos fluidos deixam a silhueta mais leve.

Algo que chama atenção nos figurinos do desfile é que os vestidos parecem flutuar no corpo, com camadas de seda transparente e estampas que remetem a diferentes momentos do dia, do azul e rosa claro ao preto cheio de estrelas. Além da impressão de movimento estar presente na cenografia, ela também está nas roupas.

O tweed também ganha movimento

Se existe um material imediatamente associado à Chanel, é o tweed. Nesta coleção, Matthieu Blazy decidiu mexer justamente em um dos códigos mais tradicionais da maison. Assim, o resultado é o chamado smocked tweed, uma nova construção que torna o tecido mais leve, maleável e elástico.

O tweed repaginado permite que o tradicional conjunto de tweed deixe de ser uma peça visualmente rígida e passe a acompanhar mais livremente os movimentos do corpo. Isso se conecta a história da marca, pois Coco Chanel ficou conhecida por questionar as restrições das roupas femininas e a propor roupas que permitissem maior liberdade às mulheres. Décadas depois, Blazy aplica essa mesma ideia a um dos maiores símbolos construídos pela maison.

Uma Chanel mais colorida e menos previsível

Blazy também mostra uma mudança através da paleta de cores das roupas do desfile, já que mesmo que tenhamos tons neutros, como creme, preto e branco, que já fazem parte da identidade visual da Chanel, também temos cores vibrantes. Portanto, vemos também vermelho, amarelo, azul, verde, rosa e turquesa, tanto nas roupas quanto nos acessórios. É possível notar também estampas de animais, xadrez e combinações contrastantes. 

Um momento marcante é a combinação de vermelho e branco. Enquanto isso, outros looks apostam em sobreposições de cores que fogem da tradicional sobriedade associada à maison. A Chanel de Blazy parece menos preocupada em parecer intocável e mais interessada em ser divertida. Portanto, essa escolha também diferencia sua atual fase da imagem mais austera que durante muito tempo esteve associada à Chanel.

O legado de Karl Lagerfeld

Para entender a Chanel que Matthieu Blazy está construindo atualmente, também é preciso olhar para Karl Lagerfeld. O estilista assumiu a direção criativa da maison em 1983 e permaneceu no cargo até sua morte, em 2019. Durante mais de três décadas, Lagerfeld foi responsável por atualizar os códigos criados por Gabrielle Chanel e aproximá-los de diferentes gerações.

Lagerfeld não abandonou elementos como o tweed, as pérolas, as correntes, a camélia e as bolsas matelassê. Assim, ele transformou esses símbolos em uma linguagem visual que poderia ser constantemente reinterpretada. Além das roupas, também ficou conhecido por transformar os desfiles da Chanel em grandes espetáculos, com cenografias que já reproduziram supermercados, aeroportos, praias e até um foguete espacial.

Seu impacto para a história da maison está justamente nessa capacidade de preservar a identidade da Chanel sem deixar que ela ficasse presa ao passado. Dessa forma, é nesse ponto que o trabalho de Blazy encontra o legado de Lagerfeld.

Uma Chanel em movimento

Ao olhar para o desfile como um todo, a ideia de movimento aparece em diferentes camadas. Está nos 95 pássaros que sobrevoam a passarela, nas roupas fluidas, no novo smocked tweed e na própria maneira como Blazy revisita elementos históricos da maison.

A nova coleção não tenta romper com a Chanel de Gabrielle Chanel ou apagar o legado construído por Karl Lagerfeld. Na verdade, ela parece entender a tradição como algo que pode ser constantemente transformado. Se Coco Chanel ajudou a libertar o corpo feminino das roupas rígidas de sua época e Lagerfeld transformou os códigos da maison em uma linguagem global, Matthieu Blazy parece interessado em descobrir como essa mesma linguagem pode continuar relevante para o presente.

No fim, os pássaros que voam sobre o Grand Palais funcionam quase como uma síntese dessa proposta, pois reconhecemos a Chanel, mas ela não está parada. A maison olha para sua própria história para encontrar novas possibilidades, e, com Blazy, parece estar pronta para voar para uma nova fase.

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Escrito por: Jarina Milena | Editado por: Maria Clara Machado

Graduada em Audiovisual, Redatora, Cientista Social e Fotógrafa gótica e indie, ama escrever, criar e estar sempre antenada ao universo da moda, cinema e cultura. Enxerga a moda como comunicação, expressão e vínculo social, utilizando-a como ferramenta para transmitir sentimentos, reflexões e questionamentos no cotidiano. Criativa e observadora, gosta de unir senso crítico, estética e autenticidade em tudo o que faz. Também ama um sorvete de casquinha mista, viajar e sair da rotina sempre que possível.

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