EQUILIBRIVM: tudo o que você precisa saber sobre o novo projeto de Anitta
Cultura,  Música

EQUILIBRIUM: tudo sobre o novo projeto de Anitta

Depois de anos construindo uma carreira baseada na expansão internacional do funk, na música pop e em colaborações com grandes nomes da indústria, Anitta parece menos interessada em provar até onde consegue chegar e mais disposta a olhar para onde veio. É desse movimento que nasce o álbum EQUILIBRIUM, projeto que inaugura uma fase mais íntima, espiritual e brasileira de sua trajetória.

Dividido em duas partes e acompanhado por uma extensa produção audiovisual, o trabalho transforma em música, imagem e performance uma questão que passou a ocupar espaço central na vida da cantora: como conciliar as diferentes versões de si mesma. A Anitta que se tornou uma estrela internacional, a Larissa que existe longe dos palcos, a espiritualidade, o desejo, as raízes familiares e a cultura brasileira passam a coexistir dentro de um mesmo universo.

Não por acaso, a ideia de equilíbrio aparece como eixo de toda a era. Em entrevista recente à Folha de São Paulo, a cantora contou que chegou a perceber um distanciamento entre sua vida pessoal e a persona que havia construído profissionalmente. O processo de autoconhecimento que deu origem ao projeto a levou a repensar não apenas a música que queria fazer, mas também a própria relação com sucesso, trabalho e exposição.

Capa de EQUILIBRIUM parte I
Capa de EQUILIBRIUM parte I (Foto: Divulgação)

Dois atos para uma mesma jornada

EQUILIBRIUM chega depois de projetos que tinham como objetivo apresentar Anitta a públicos cada vez maiores. Versions of Me explorava diferentes facetas da cantora para o mercado global, enquanto Funk Generation aprofundava sua tentativa de levar o funk carioca para fora do Brasil. Agora, o movimento parece ser outro. Em vez de traduzir sua brasilidade para o exterior, Anitta parte dela e olha para dentro.

O primeiro volume mergulha em gêneros e referências brasileiras, aproximando funk, samba, axé, reggae e ijexá de uma produção pop contemporânea. A presença de artistas como Marina Sena, Liniker, Luedji Luna, Ponto de Equilíbrio, Os Garotin e Rincon Sapiência reforça essa escolha por construir a obra a partir de diferentes regiões da música brasileira.

Já a segunda parte amplia ainda mais esse território. Maria Bethânia, Alceu Valença, Mart’nália, Mestrinho, MC Tha, Brô MC’s e Grupo Ofá estão entre os nomes que aparecem no projeto, que também incorpora forró, MPB e referências à música popular brasileira.

A mudança não é apenas sonora. Pela primeira vez em muito tempo, a internacionalização deixa de ser o principal horizonte da obra. A própria Anitta contou que, inicialmente, imaginava continuar desenvolvendo um álbum voltado ao mercado internacional, mas decidiu redirecionar o projeto para o Brasil depois de perceber que precisava de mais tempo para si. 

A estrutura em duas partes não funciona apenas como uma estratégia de lançamento. Os discos formam capítulos diferentes de uma mesma investigação pessoal.

O primeiro EQUILIBRIUM, lançado em abril, apresenta uma Anitta em contato com sua espiritualidade e com diferentes possibilidades de equilíbrio entre corpo, fé e identidade. A segunda parte, lançada em julho, aprofunda essa investigação e amplia o repertório cultural da obra.

A própria variedade de colaboradores ajuda a entender a proposta. Não existe uma única ideia de Brasil dentro de EQUILIBRIUM. Há o Brasil do funk, do samba e do axé, mas também o sertão, a cultura indígena, as tradições afro-brasileiras e diferentes manifestações regionais.

O resultado é menos uma tentativa de definir o que é “brasileiro” e mais uma coleção de possibilidades para essa identidade.

Espiritualidade no centro da narrativa

A espiritualidade, entretanto, é o elemento que costura essas diferentes referências. Anitta já havia explorado sua relação com o Candomblé e incorporado a sua fé em trabalhos anteriores, mas em EQUILIBRIUM essa dimensão é parte estrutural da obra. O Candomblé, os orixás, a ancestralidade e outras referências espirituais aparecem não como detalhes isolados, mas como componentes da narrativa.

Em “Deus Mãe”, por exemplo, a figura de Nanã é representada como uma força ligada à criação. A produção também incorpora elementos naturais e referências a saberes tradicionais brasileiros, enquanto o figurino participa ativamente da construção dessas imagens. 

Na segunda parte, essa linguagem se expande. “Sal Grosso” estabelece uma relação com Oyá e com a tradição iorubá dos Zangbetos, enquanto “Ogum Me Rodeia” reúne Maria Bethânia e Letícia Fialho. Em “Você Já Sabe”, Exu aparece associado à ideia de movimento, abertura de caminhos e transformação. Esses conceitos estão diretamente relacionados à busca pelo equilíbrio que orienta o projeto. 

Essa escolha também exige cuidado. O produtor Felipe Britto, responsável pelos visuais do projeto, destacou em entrevista que a intenção não era transformar elementos sagrados em decoração, mas trabalhar a partir da exaltação e respeito às referências utilizadas.

É justamente nesse ponto que EQUILIBRIUM se distancia de uma simples estética espiritualizada. A fé não está apenas no cenário: ela interfere na narrativa, na música, no corpo, no figurino e na maneira como Anitta se apresenta.

Anitta em "Desgraça", videoclipe onde ela homenageia a força das pombogiras
Anitta em “Desgraça”, videoclipe onde ela homenageia a força das pombogiras (Foto: YouTube/Divulgação)

Quando o álbum também vira imagem

A construção visual talvez seja um dos elementos mais ambiciosos da nova era. Em vez de utilizar videoclipes apenas para acompanhar os singles, Anitta desenvolveu uma sequência de imagens que funciona como extensão narrativa das músicas.

O segundo volume, por exemplo, ganhou um curta-metragem de 35 minutos, escrito pela própria cantora. Nele, diferentes personagens e universos aparecem como manifestações de uma mesma Anitta. Há a figura ligada a Carmen Miranda, as pombagiras, a personagem romântica, a mulher lúdica e diferentes representações de sua identidade.

A direção criativa de Nídia Aranha e a produção visual trabalham justamente com essa multiplicidade. A ideia não é criar uma identidade visual única e rígida, mas permitir que cada ato tenha sua própria atmosfera. E a moda participa diretamente dessa construção.

Os figurinos foram pensados a partir de diferentes regiões do país e priorizaram marcas e designers brasileiros. No segundo curta, o styling de Daniel Ueda e André Philipe passa por materiais naturais, referências populares, elementos religiosos e diferentes interpretações da feminilidade brasileira.

Em “Deus Mãe”, por exemplo, peças de Labô Young incorporam folhas, palhas e sementes, enquanto outros looks dialogam com as chamadas Rainhas das Matas, coletivo de mulheres trans e travestis da Ilha do Marajó. Em outro momento, tons de roxo, vinho, barro e terra ajudam a construir visualmente a presença de Nanã. 

Assim, a videografia de EQUILIBRIUM não apenas ilustra as canções. Ela funciona como uma espécie de arquivo visual daquilo que a cantora está tentando investigar.

Do audiovisual para o palco

Essa lógica chega agora à EQUILIBRIUM Tour, que transforma a nova era em experiência ao vivo. Anunciada inicialmente com apresentações em cinco cidades brasileiras, a turnê começou em agosto e foi pensada para acompanhar a proposta mais conceitual do álbum.

A ideia também representa uma mudança em relação aos grandes espetáculos pop que marcaram fases anteriores da carreira. Em entrevista, Anitta antecipou que os shows ligados ao projeto teriam uma proposta mais intimista e concentrada no universo do disco. 

Isso significa que a experiência não deve depender apenas de sucessos conhecidos. O repertório de EQUILIBRIUM passa a ocupar o centro, enquanto a cenografia e a performance devem prolongar a atmosfera criada nos audiovisuais.

É uma escolha coerente com o próprio conceito do álbum: se a obra fala sobre integrar diferentes partes de uma mesma pessoa, o show também precisa comportar essas diferentes Anittas.

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Escrito por Mayla Shiva I Editado por Ana Carolina Gomes 

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