Nada se cria, tudo se transforma: onde estão suas referências de moda?
Se quem tem ouvidos, ouça; quem tem olhos, veja. E, mesmo sabendo que, como diz a Lei de Lavoisier, na natureza nada se cria, tudo se transforma, a discussão na internet sobre autenticidade e onde buscar inspiração além das telas está em alta. No entanto, ela toca em uma questão antiga da arte: de onde vêm, afinal, as referências de quem cria?

Em um vídeo publicado no Instagram, a influenciadora Ana Cshumiski compartilha seu processo criativo ao construir um look a partir de palavras. O exercício, que parte de associações subjetivas antes de chegar à roupa, desloca o eixo tradicional da criação e em vez de responder diretamente a tendências ou imagens já consolidadas, a escolha surge da sensação que cada palavra causa nela. Esse gesto evidencia uma tensão antiga entre repetição e invenção dentro do mundo criativo.
A resposta mais imediata para a origem das referências ainda costuma apontar para dentro da própria bolha: passarelas, editoriais, tendências de temporada e, hoje, sobretudo, as redes sociais. No entanto, a história da criação, tanto no design quanto em outras áreas, demonstra que a inovação raramente nasce do espelhamento direto. Ela surge, antes, de deslocamentos.
Quem estoura essa bolha?
Estilistas que atravessaram gerações entenderam que expandir o repertório é condição para criar algo que não seja apenas reedição. Ao longo do século XX, a aproximação entre moda e arte consolidou-se como um dos exemplos mais evidentes dessa dinâmica. Yves Saint Laurent, ao transpor as composições de Mondrian para o vestuário, não apenas citou a pintura moderna, mas reinterpretou sua lógica em outro suporte. Décadas depois, Raf Simons, na Dior, construiu um ambiente imersivo a partir do imaginário de Monet, traduzindo a experiência pictórica em matéria têxtil.


Nesses dois casos, a roupa surge como consequência de um olhar já atravessado por outras linguagens.
Entre esse diálogo, a relação com a arquitetura também ganha destaque. Ambas partem do corpo, da proporção e da organização do espaço. Não por acaso, Coco Chanel afirma que moda é, em essência, uma questão de proporção e criadores como Alexander McQueen, Jum Nakao e Yohji Yamamoto são conhecidos e “polemizados” por explorarem estruturas não convencionais em suas coleções.

No contexto brasileiro, essa troca se manifesta de forma particular na relação com a arquitetura moderna. Pedro Lourenço, por exemplo, apresentou em Paris, para a La Perla, uma coleção inspirada nas curvas de Oscar Niemeyer, evidenciando como a leitura de formas arquitetônicas pode ser traduzida em caimento e estrutura nos tecidos.

Sentir é linguagem, linguagem é moda!
Se a arte e a arquitetura oferecem referências visuais e estruturais, há ainda dimensões menos tangíveis que atravessam o processo criativo. A música, por exemplo, opera em um campo sensorial que não se traduz diretamente em imagem, mas na famosa “vibe”. Na moda, essa transposição ocorre por meio de escolhas de cor, textura e silhueta, capazes de transmitir nossos estados emocionais, como por exemplo, os clássicos preto: “deprê”, amarelo: feliz e etc.
É nesse território que ao partir de palavras e sensações, por exemplo, o processo de criação acessa uma camada anterior à forma. Trata-se de um movimento que dialoga com abordagens sinestésicas, nas quais diferentes sentidos se articulam para gerar soluções mais autorais.
Essa mesma lógica aparece em práticas contemporâneas que levam a busca por referências para o campo da experiência pessoal. A influenciadora e criadora de conteúdo, Maria Rafaella (@mahoomari), diz que, para ela, o repertório criativo surge não como acúmulo externo, mas como reativação de memórias. “O que vem me inspirando é exatamente isso: eu mesma”, afirma.

Ao retomar atividades manuais esquecidas na correria da vida adulta, ela conta viver a perda progressiva de estímulos à experimentação ao longo do tempo, em que, na sociedade do cansaço, segundo filósofo Byung-Chul Han, o sujeito deixa de experimentar livremente porque está sempre orientado por metas, resultados e validação. A criatividade, que na infância surge de forma lúdica, passa a ser instrumentalizada, ou até bloqueada, pelas pressões da vida adulta.
“Quando somos crianças, somos mais estimulados à criatividade. Quando crescemos, a maioria perde isso no meio das obrigações”, observa. Nesse contexto, revisitar práticas e referências da infância e da adolescência, como vestir uma meia-calça colorida ou acessórios mais lúdicos que te lembram como era abrir o guarda-roupa da sua mãe escondido, passam a operar como repertório, nesse caso, afetivo.
Ao mencionar tentativas de recriar atividades do programa Art Attack, a criadora aponta para a valorização do processo e da aprendizagem e a reflexão se amplia ao reconhecer que o amadurecimento não implica necessariamente perda criativa, mas reconfiguração. “A gente perde algumas coisas quando cresce, mas ganha outras (habilidade, autonomia). Então por que não usar isso a nosso favor?”, questiona.
Em outra direção, a criadora de conteúdo digital e fundadora da @agnes.ceramica, Júlia Agnes, desloca o olhar para referências materiais e históricas. Azulejos antigos, pisos de casas antigas, tapeçarias e objetos de antiquário constituem um repertório visual marcado por padrões, repetições e combinações cromáticas específicas. “Sempre tem um padrão incrível que posso usar nas artes”, afirma.

Esse tipo de referência, frequentemente associado ao cotidiano e à memória de casa, revela como formas e cores observadas em objetos utilitários ou decorativos podem ser reinterpretadas em novas superfícies, evidenciando a permeabilidade entre diferentes campos criativos.
A bolha social
A busca por referências fora das telas tem ganhado força na internet (contraditório, eu sei), mas esse assunto é, sobretudo, estudo de muitos pesquisadores que analisam o impacto do digital na forma como vivemos.
A socióloga Sherry Turkle aprofunda essa discussão ao analisar como o uso constante de telas altera nossa relação com o mundo e, consequentemente, com a criação. Em Reclaiming Conversation, ela argumenta que, ao substituir experiências diretas por interações mediadas por dispositivos, perdemos algo essencial: a capacidade de observar, escutar e nos deixar naturalmente sentir. Esse afastamento reduz o contato com o diferente, pessoas, ambientes, situações, que é justamente o que alimenta o nosso repertório criativo.
No contexto da moda, isso se traduz em um risco claro: quando a referência vem majoritariamente das telas, o processo criativo tende a se basear em imagens já existentes e repetidas, como é com o uso das conhecidas Inteligências Artificiais. Estudos recentes, publicados pela Massachusetts Institute of Technology, afirmam que embora a IA possa facilitar ideias e até melhorar resultados individuais, ela tende a reduzir a diversidade das soluções, levando a produções mais semelhantes entre si, ou seja, quanto mais se cria a partir de um mesmo banco de dados e padrões recorrentes, menor o espaço para o inesperado. Por isso, para Turkle, é no encontro com o outro e com o mundo físico que surgem as nuances, os detalhes e as contradições que tornam uma ideia realmente nova.
Expandir o olhar é expandir o vocabulário
Criar um look, portanto, não se reduz à escolha de peças, mas à formação de um olhar. Ampliar o repertório deixa de ser uma tarefa pontual e passa a constituir um exercício contínuo de observação, associação e tradução. Nesse processo, o guarda-roupa é seu auxiliar. Antes da roupa, há imagem, memória, sensação e experiência. É nesse intervalo, entre o que se vive e o que se veste, que a moda encontra, repetidamente, suas possibilidades de reinvenção.
Então, se para você, sair da bolha parece assustador, aqui vão algumas dicas para tornar o seu processo criativo mais divertido:
- Observe a rua
Nem toda referência está no feed e a simples mudança de perspectiva pode te gerar novas ideias. Repare texturas, padronagens, pinturas e todo ponto de cor que te chame atenção;
- Misture universos diferentes
O que acontece quando misturamos o doce com o salgado? Muitos diriam “agridoce”, mas a verdade é que tem que comer para saber! Combinar elementos que não parecem “conversar” é um dos caminhos mais eficazes para criar algo novo. O interessante muitas vezes nasce do contraste;
- Dê tempo para a ideia acontecer
Nem tudo precisa ser imediato e pode ser que deixar uma referência maturar evita soluções superficiais e abre espaço para construções mais autênticas e aprofundadas;
- Experimente sem a pressão de acertar
Criar também é testar. Tirar a obrigação de resultado final devolve à prática um espaço de descoberta e é aí que surgem as ideias mais interessantes, seu story pode esperar!
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Escrito por Júlia de Moura I Editado por Ana Carolina Gomes


