Como nos sentimos quando criamos algo?
O afeto, a Inteligência Artificial e a recusa de um compromisso
A pergunta que orienta o desfile de Alta-Costura da Schiaparelli para a coleção A Agonia e o Êxtase, de Daniel Roseberry, “Como nos sentimos quando criamos algo?”, desloca o centro da criação da forma para a experiência psíquica. Em vez de perguntar como a roupa deve parecer, o designer propõe partir do que se vive internamente durante o ato criativo e permite que a tensão, desejo, desconforto, excesso encontrem uma forma possível no corpo.


As roupas com muitos volumes, estruturas e modelagens que parecem pressionar o corpo e referências quase anatômicas escancaram que nada na coleção é neutro. Cada look, feito à mão, funciona como uma tradução visual de um estado interno, como se a roupa assumisse a tarefa de nos expressar emocionalmente. O afeto encontrando um corpo onde se apegar.
O sentimento, ali, é intenso, claro, quase teatral. A roupa sente alto.

Sentir ou não sentir? Eis a questão
Se na Schiaparelli criar é um processo atravessado pelo afeto, no desfile de Alexis Mabille, feito e apresentado inteiramente por uma Inteligência Artificial, a pergunta “Como nos sentimos quando criamos algo?” recebe uma resposta diferente: sentimos alívio por não precisarmos nos comprometer.

Crédito: Reprodução / Instagram @alexismabille
À luz do filósofo Zygmunt Bauman e de sua ideia de modernidade líquida, esse gesto pode ser lido como sintoma de uma sociedade que evita tudo aquilo que exige tempo e compromisso. Para Bauman, a modernidade líquida se caracteriza pela dificuldade de sustentar processos longos e vínculos estáveis.
Aplicada à moda, essa lógica ajuda a entender por que a criação, quando passa pelo trabalho artesanal da Alta Costura, pelo erro e tentativa, torna-se desconfortável. No desfile de Mabille, a inteligência artificial oferece uma solução rápida, porque elimina o risco, acelera o processo e entrega uma imagem perfeita, sem resistência material.

Como o processo de produção conceitual e artístico acontece de forma muito mais rápida com o uso de ferramentas artificiais, perde-se no caminho um elemento central da criação: a capacidade crítica. A dúvida é parte essencial do processo criativo, pois permite que exista espaço para a construção de uma ideia inicial. Muitas vezes, cria-se a partir de um ponto e, ao longo do caminho, outras referências e atravessamentos se somam, mudando o destino previsto. Quando a inteligência artificial entrega o resultado final de maneira quase imediata, esse percurso intermediário se encurta ou desaparece. A criação já nasce resolvida, sem espaço para mudança.
Criar, aqui, deixa de ser uma experiência emocional para tornar-se um exercício de gestão visual. O pensamento deixa de ser atravessado pela dúvida e pelo tempo da elaboração para operar segundo lógicas de eficiência, previsibilidade e otimização.
“Teria sido fácil optar pelo bizarro e pelo extravagante. Mas esta é uma coleção controlada e refinada que demonstra que é possível criar utilizando uma abordagem diferente, mais mecânica.” — Explicou Alexis Mabille.
Efeito blasé
O que surge dessa mecanização não é a roupa, mas sua ideia, intocável e pronta. Há, então, uma perda, além do fazer manual, do pensar como experiência encarnada.
Esse deslocamento pode ser lido pelo conceito de efeito blasé, formulado por Georg Simmel, para descrever um estado de anestesia diante do excesso de estímulos. Na experiência blasé, nada impacta profundamente porque tudo já foi visto, acelerado e absorvido em sequência. Aplicado à criação mediada por inteligência artificial, o efeito se manifesta na produção de imagens impecáveis, porém emocionalmente planas: não há choque ou demora suficientes para que o sentimento se instale. A criação deixa de afetar porque já nasce saturada de referências resolvidas, produzindo uma familiaridade indiferente.
Assim, ao responder à pergunta sobre como nos sentimos ao criar algo, o desfile de Mabille sugere uma nova ideia: criar é “leve”.
O que se perde quando nada pesa
Quando a roupa sente por nós ou quando ela já não precisa existir, algo se desloca. E nossos sentimentos, para onde vão?
Vão para a gaveta. Segundo Bauman, tornam-se reféns de uma criação compatível com um mundo que prefere a leveza da imagem à responsabilidade do fazer. O sentimento que resta é uma indiferença confortável e, talvez, seja justamente nessa neutralidade que se revele a fragilidade e singularidade de ser criativo.

Entre a agonia e o êxtase há um intervalo incômodo, feito de tempo. Mesmo assim, criar pode ser leve, mas, talvez, só seja verdadeiramente criativo aquilo que aceitar não ser. O erro e excesso não são falhas do processo: são sua própria condição. É nesse peso que a roupa ainda sente e nos lembra que sentir, hoje, pode ser o gesto mais radical.
E, para ficar por dentro das novidades sobre conteúdos do mundo da moda, não deixe de acompanhar o Fashionlismo!
Escrito por Júlia de Moura – @julmbz | Editado por Ana Carolina Gomes


