Quando a moda negocia: diplomacia, poder e imagem política
A moda costuma ser reduzida à superficialidade, ligada apenas ao capricho estético, à futilidade ou ao consumo. Na realidade, ela é um dos setores mais complexos da economia global e um dos mais sutis instrumentos de poder político e cultural. Ao mesmo tempo, eventos como Met Gala, desfiles de alta-costura e aparições de líderes em público funcionam como uma espécie de linguagem, capaz de atrair, convencer, seduzir ou legitimar governos e nações.

Moda, economia e poder internacional
Ao longo das últimas décadas, esse setor deixou de ser subestimado e se tornou uma das maiores indústrias do mundo, movimentando cerca de 1,7 trilhão de dólares por ano. Segundo dados do mercado, como os do Statista, esse valor representa aproximadamente 1,6% do PIB mundial.
Grandes grupos como LVMH, Nike e Inditex concentram parte significativa desse capital, influenciando não apenas o mercado consumidor, mas também cadeias logísticas, políticas fiscais e agendas de investimento de Estados. O fenômeno da globalização ampliou o alcance dessa macroindústria, que depende de matérias-primas que são produzidas em diferentes regiões do mundo, e de estruturas de varejo e marketing nas principais potências econômicas, configurando uma engrenagem transnacional que não escapa à política internacional.
Ao mesmo tempo, a moda é um poderoso indicador cultural e simbólico: roupas sintetizam identidade, classe, gênero e valores, e podem ser mobilizadas para reforçar ou contestar narrativas nacionais e internacionais.
É nesse ponto que ela se conecta diretamente ao conceito de soft power formulado pelo Joseph Nye, que entende o poder como influência construída por atração, e não apenas pela força militar ou econômica. A moda entra nesse campo como fonte de cultura, estilo de vida e imaginário, capaz de moldar preferências e percepções de outros países.
Soft power, diplomacia cultural e moda
O soft power não se baseia em coação, mas em valores, cultura e política externa que geram simpatia e imitação voluntária por outros atores. A diplomacia cultural utiliza artes, educação, patrimônio e modos de vida para construir relações de confiança, ressignificando imagens de países que enfrentam estereótipos negativos ou conflitos políticos.
Dentro desse universo, a moda aparece como um dos eixos mais visíveis da atração cultural: coleções, estilistas, semanas de moda e cidades consideradas “capitais da moda” tornam‑se referência de sofisticação e modernidade, projetando a imagem de toda uma nação.
Estudos acadêmicos já apontam que países como a França utilizam a moda como vetor estratégico de soft power, articulando desfiles, marcas de luxo e megaeventos para reforçar valores de elegância, diversidade, sustentabilidade e inovação.
A abertura das Olimpíadas de Paris 2024, por exemplo, transformou a cidade em cenário fashion, em que figurinos de grandes casas de moda operaram como discurso de Estado, reafirmando a tradição francesa e ao mesmo tempo atualizando sua imagem para o mundo contemporâneo.

Nesse contexto, a moda deixa de ser apenas entretenimento e passa a ser um ferramenta diplomática, capaz de reforçar alianças, atrair turismo e legitimar decisão política.
Moda e relações internacionais: do vestir à política externa
As relações internacionais contemporâneas não se resumem a tratados ou acordos comerciais tradicionais; envolvem também a barganha de símbolos, narrativas e representações.
A moda acompanha essa dinâmica pois, como afirma o artigo “A moda nas dinâmicas de relações internacionais contemporâneas”, do portal Relações Exteriores, ela é simultaneamente um fenômeno econômico, cultural e político. Além de modificar padrões de consumo, recebe influência de crises geopolíticas e pode ser mobilizada para sinalizar continuidade, ruptura ou modernização de um regime.
Essa indústria é um exemplo de como o soft power é construído por atores privados e públicos: Estados apoiam semanas de moda, subsídios a estilistas, projetos de sustentabilidade e “moda ética”, enquanto marcas e instituições de museus e cultura internacionalizam a estética nacional.
Ao mesmo tempo, acontecimentos globais, como guerras, pandemias e crises climáticas, redefinem demandas e narrativas, que passam a incluir temas como responsabilidade ambiental, direitos de trabalho na cadeia produtiva e diversidade racial e de gênero.
Em muitos casos, esses temas são incorporados às agendas de diplomacia pública, em que a moda funciona como pano de fundo simbólico para discursos de progresso e inclusão.
A diplomacia da imagem: primeiras-damas, líderes e Met Gala
A individualização da política, com a ascensão de figuras midiáticas e de redes sociais, potencializou o papel da moda como ferramenta de construção de imagem institucional.
Primeiras‑damas, ministras e outros líderes políticos têm sido analisados também por suas escolhas de vestuário, que, mesmo aparentemente neutras, carregam mensagens de autoridade, acessibilidade, modernidade ou tradição.
Melania Trump, por exemplo, é citada como caso paradigmático de uso discreto porém estratégico da moda para reforçar a imagem de solidez, elegância e distância de extremismos simbólicos.

Por outro lado, grandes eventos como o Met Gala 2025 revelam explicitamente a interseção entre moda e política. Com o tema “Superfine: Tailoring Black Style”, a cerimônia trouxe à frente estéticas da diáspora africana e discursos sobre identidade, mas também foi palco de performances e simbologias politizadas, evidenciando que o vestuário se tornou engrenagem narrativa de disputas ideológicas.
A presença de autoridades como a Kamala Harris, usando um vestido off‑white do estilista IB Kamara, suscita leituras sobre tonalidade política, apelo à pacificação e posicionamento em relação a correntes conservadoras ou progressistas.

Esses episódios mostram como a moda deixa de ser apenas celebração cultural para se tornar espaço de disputa de imagem, em que nações e lideranças negociam percepções e legitimidade internacional.
Tensões políticas, extrema-direita e a moda como campo de batalha
Em um cenário de instabilidade política global, ascensão de governos de extrema‑direita e polarização ideológica, a moda torna‑se um campo de tensão simbólica.
Por muitas vezes, ela é frequentemente associada a narrativas de progressismo, diversidade e inclusão, sendo utilizada por governos e movimentos sociais para reforçar agendas de direitos, gênero e raça. Ao mesmo tempo, críticas alertam que essa mesma associação pode submeter a moda a hegemonias ideológicas, reduzindo espaço para expressões mais conservadoras, religiosas ou tradicionais de vestir, como sobriedade clássica ou códigos estéticos ancorados em culturas locais.
Nesse contexto, a diplomacia da imagem esbarra em questões delicadas: em que medida a moda serve para construir pontes culturais e acolhimento de pluralismos, e em que ponto passar a funcionar como instrumento de imposição simbólica, silenciando certas narrativas em nome de outras?
A literatura em diplomacia cultural e soft power aponta justamente para essa ambiguidade: a cultura pode ser usada tanto para promover entendimento quanto para reforçar hierarquias e narrativas hegemônicas. No caso da moda, isso significa que decisões sobre que corpos, que estilos, que culturas são “vistas” como legítimos em passarelas, cerimônias oficiais e mídia internacional não são neutras, e têm impacto sobre como determinados países, comunidades e governos são percebidos globalmente.
Diplomacia visual e a urgência da autenticidade
Diante disso, a chamada “diplomacia visual” se revela um dos componentes crescentes da política internacional contemporânea. A escolha de um traje para uma cúpula, a coordenação de figurinos em eventos esportivos de escala global, a promoção de estilistas nacionais em semanas de moda internacionais ou a presença de líderes em eventos de moda de alto nível são movimentos calculados, que visam transmitir estabilidade, modernidade, abertura ou rebeldia, conforme o contexto político em que o Estado se insere. A moda, nesse sentido, é um protocolo não escrito, capaz de complementar, contradizer ou reforçar discursos oficiais.
No entanto, analistas de relações internacionais e diplomacia cultural também alertam para a necessidade de autenticidade nessa operação simbólica. Apenas importar narrativas estrangeiras, calcar a imagem nacional em fórmulas globalizadas de “moda progressista” ou ignorar raízes culturais locais pode esvaziar a força da diplomacia da imagem, transformando a moda em mera fachada estética.
A moda como ferramenta diplomática só ganha densidade quando dialoga com a história, a geografia, a diversidade étnica e as contradições de cada sociedade, em vez de apagar esses elementos em nome de consensos simbólicos superficiais. Ela deixa de ser apenas um acessório da política para se tornar um dos palcos centrais em que poder, narrativa e identidade são negociados em escala global. Através de grandes marcas, semanas de moda, cerimônias esportivas e políticas, ela estrutura dinâmicas de influência, atrai ou repele olhares internacionais e condiciona a forma como Estados se apresentam no sistema internacional.
Em um contexto de tensões políticas, ascensão de governos reacionários e crise de narrativas democráticas, a moda pode tanto reforçar consensos hegemônicos quanto abrir frestas para representações mais pluralistas e inclusivas.
A moda como lugar de negociação política
A partir desse cenário, analistas, criadores, diplomatas e formadores de opinião precisam assumir a moda como um campo de análise político‑simbólico, não apenas estético: cada look, cada desfile, cada escolha de vestuário em palco internacional carrega um recado, insere‑se em disputas de imagem e se entrelaça às estratégias de poder da diplomacia contemporânea.
Resta, então, que a moda seja lida não apenas como objeto de consumo, mas como um território político em si mesmo, que seja um lugar em que corpos, símbolos e estilo de vida se tornam parte das batalhas simbólicas do mundo contemporâneo.
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Escrito por Victória Parente | Editado por Ana Carolina Gomes


