Robert Wun transforma criação em performance na Semana de Alta-Costura de Paris 2026
Em uma das mais aguardadas noites da Semana de Alta-Costura de Paris, o designer Robert Wun apresentou, no lendário Théâtre du Lido, sua mais nova coleção, intitulada “Valor: The Desire to Create, and the Courage to Carry On” (O desejo de criar e a coragem de continuar). Inspirado por sua época de estudante na Central Saint Martins, Wun usou esse retorno às origens para explorar a essência do ato de criar, resgatando a imaginação mais livre e “selvagem” do início de sua carreira.
Logo ao adentrar o icônico cabaré parisiense, o público foi imediatamente envolvido por uma atmosfera cinematográfica e intensa, onde diversos painéis exibiam tempestades e relâmpagos, buscando criar um clima dramático que reflete a tensão emocional presente em toda a coleção.

Um desfile em três atos
O evento foi apresentado com uma narrativa dividida em três partes, cada uma simbolizando um momento diferente do processo criativo: O surgimento da ideia, o confronto com o valor e a realidade, e a coragem para seguir criando mesmo diante de desafios.
No primeiro ato, denominado “Library”, Wun explora o início do ato de criar. Aqui, ele recorreu a seus antigos desenhos da faculdade, traduzindo essa inspiração em silhuetas monocromáticas com contornos precisos, ombros arredondados e saias alongadas que evocam a clareza e foco das primeiras ideias.


O destaque visual fica por conta de peças esculturais, como um vestido cravejado de miçangas, que sugere a força e peso simbólicos da própria imaginação.

Já o “Luxury: Confrontation of Reality” marca o momento em que o sonho choca com a realidade do mercado e das expectativas do luxo. O estilista questiona o que torna um objeto valioso e como o valor é percebido, apresentando peças com bustos moldados e máscaras incrustadas de cristais que escondem a identidade dos modelos.


Nesta parte, a moda parece refletir tanto a atração quanto a tensão envolvidas em enfrentar o mundo da alta-costura.

No ato final, chamado de “Valor”, a coleção atinge seu clímax simbolizando coragem e resiliência. Wun retrata os criadores como guerreiros internos, armados com perseverança e obsessão, enfrentando dúvidas e desafios para continuar criando.


Essa ideia se manifesta em looks que lembram armaduras brilhantes e formas quase mitológicas, com figurinos que misturam força e lirismo enquanto se movem sob a tempestade projetada ao fundo da passarela.

Wun mantém sua teatralidade marcante
A coleção explorou uma paleta de contrastes, desde o monocrômico austero até tons metálicos intensos e superfícies texturizadas, transformando cada look em um símbolo de resiliência e coragem. A monotonia dos tempos conturbados parece refletida em peças que mais lembram armaduras do que roupas.


Esses elementos reforçam a visão de Robert sobre a alta-costura como um escudo psicológico e performance visual, e não apenas como moda para consumo.
Parceria com joalheira
Além das silhuetas impactantes, o desfile incluiu uma colaboração com a joalheira Anabela Chan, que trouxe gemas cultivadas em laboratório para adornar tiaras, colares e joias corporais.


Ao usar materiais inspirados em ingredientes como beterraba e espirulina para criar jóias coloridas, Wun e Chan questionam o que é considerado precioso hoje.
Quando criar é resistir: a mensagem por trás do desfile
Num momento em que a Semana de Alta-Costura de Paris equilibra tradições centenárias com demandas contemporâneas, a proposta de Robert Wun se destaca por reimaginar a alta-costura como narrativa emocional e performance artística, e não apenas como uma vitrine de peças luxuosas.

Ao transformar o desfile em um ato quase teatral, o estilista amplia o papel da moda como linguagem cultural, capaz de expressar estados emocionais, tensões sociais e conflitos internos do próprio ato de criar. O uso de cenografia imersiva, silhuetas que evocam proteção e confronto, e materiais que desafiam a ideia tradicional de valor reforçam uma visão de alta-costura conectada ao presente, sensível às angústias, incertezas e questionamentos do nosso tempo.

Sua visão reafirma que, mesmo em cenários de instabilidade criativa, econômica e simbólica, a moda pode ser um espaço legítimo de questionamento, metáfora e resistência. Mais do que roupas, Wun entrega imagens carregadas de significado, capazes de permanecer na memória coletiva e de posicionar a alta-costura como uma forma de arte viva, relevante e profundamente emocional.
Escrito por Victória Parente | Editado por Ana Carolina Gomes


