Tendências

Microestilos e Aesthetics da Internet na Moda

Como identidade, consumo e pertencimento são performados na era digital.

O que são os microestilos? 

O microestilo ficou popularmente conhecido como aesthetic no ambiente digital, e representa uma tendência estética altamente específica. Em sua maioria, são nichadas, de curta duração e se manifestam primariamente nas plataformas de mídia social, como TikTok e Instagram. Ele se diferencia das grandes tendências de moda e estilo tradicionais por sua fragmentação e sua dependência da cultura digital. No entanto, um microestilo vai muito além de um conjunto de roupas específico: é um código visual que abrange narrativa e consumo, se tornando um estilo de vida.  

De maneira mais suscinta, o microestilo se diferencia do estilo clássico em gênero número e grau. Um  estilo clássico (ex: casual, esportivo, formal) dura anos ou décadas, tem sua origem nas passarelas ou movimentos culturais, possui um escopo amplo e flexível, e é movido pela história e a arte. 

A sociedade hiperconectada e a nova comunicação de moda 

O avanço tecnológico das últimas décadas revolucionou muitos aspectos da nossa sociedade, desde a indústria até o nosso comportamento. Bauman descreveu esse fenômeno como modernidade líquida: uma fase da sociedade em que estruturas sociais como empregos, relações, instituições e identidades não são mais sólidas e duradouras, adquirindo um status muito mais fluido, flexível e transitório. 

A moda, como um espelho da sociedade, também se mostra afetada por essa reestruturação. E as microtendências são a encarnação visual da liquidez que Bauman descreve. Elas surgem rapidamente e desaparecem antes mesmo de se solidificarem como movimentos culturais. Além disso, os microestilos funcionam como conexões estéticas mutáveis: são códigos rápidos e efêmeros que permitem que alguém se junte a uma “tribo” online por um tempo. Eles oferecem identidades prontas para uso, quase como “fantasias” que o indivíduo veste. Adotar o Dark Academia por exemplo, é uma forma de “ser” algo por um tempo sinalizando pertencimento sem o peso de um compromisso identitário permanente.

O consumo também se torna um eixo central na sociedade hiperconectada. Para Bauman, ser um bom cidadão na modernidade líquida é, sobretudo, ser um bom consumidor. As compras passam a ser feitas não apenas pensando na utilidade dos produtos, mas visando também adquirir códigos sociais ou culturais que simbolizem o tão buscado pertencimento. 

Dessa forma, os microestilos acabam sendo altamente mercantilizados. Eles traduzem códigos estéticos em listas de produtos que devem ser comprados para que o estilo seja autenticamente performado. O status de pertencer a um microestilo é alcançado através da compra dos produtos certos. No entanto, a natureza volátil deles garante que a satisfação da compra de um item específico dure pouco. Isso força o indivíduo a buscar a próxima microtrend, a próxima compra, o próximo must have, perpetuando o ciclo do consumo para preencher o vazio da identidade líquida. 

Por fim, os microestilos prometem pertencimento e uma identidade clara, mas só podem oferecê-los de forma fugaz. Isso mantém o indivíduo em um ciclo constante de consumo e reinvenção para não cair na temida invisibilidade social do mundo hiperconectado. 

Microestilos recentes e o comportamento contemporâneo

Os microestilos funcionam como termômetros culturais, refletindo as ansiedades, os desejos de fuga e as pressões sociais do comportamento contemporâneo. 

Alguns elementos são importantes para a definição de um microestilo: 

  • Especificidade de seus elementos visuais e/ou temática; 
  • Viralidade e dependência digital; 
  • Transitoriedade; 
  • Ligação direta com o consumo. 

Ao observar todas as tendências, percebemos e analisamos três categorias de microestilos que melhor encapsulam as tensões da sociedade hiperconectada, sendo elas: 

  • Fuga nostálgica; 
  • Luxo e hierarquia social; 
  • Performance e confronto.

Fuga nostálgica

Os microestilos dessa categoria têm um perfil que busca remontar a estética e o lifestyle de décadas passadas, sempre com um quê de nostalgia. As estéticas de Fuga Nostálgica refletem um desejo de escapar das complexidades e da exaustão da vida hipermoderna (incertezas econômicas, ansiedade digital) ao idealizar e recriar visualmente um passado percebido como mais simples, seguro ou charmoso. 

São exemplos dessa categoria as estéticas cottagecore, frutiger aero e Y2K.

  • Cottagecore: Caracteriza-se pela fuga da realidade através da idealização da feminilidade. O Cottagecore idealiza uma vida rural, artesanal e pré-industrial que seria a antítese da era digital. Os laços, rendas e cores pastel idealizam uma feminilidade hiper-romântica e delicada. Juntamente com outros microestilos como o coquette, por exemplo, denunciam formas de fuga estética que rejeitam a dureza do mundo hipermoderno em favor de um universo mais macio, controlado e bonito. 
Estética Cottagecore – Foto: reprodução Pinterest
  • Frutiger Aero: Caracteriza-se pela nostalgia e otimismo tecnológico. Reflete uma saudade da estética digital dos anos 2000 e início dos 2010 (Windows Vista, céus azuis, bolhas, glossy). Representa uma era da tecnologia antes que a indústria se tornasse sinônimo de vigilância e desastre iminente. É a busca por um tempo percebido como mais “esperançoso” e “simples”.
Estética Frutiger Aero – Foto: Angel Dust/Reprodução/Pinterest
  • Y2K: Caracteriza-se pela reprodução do visual clubber dos anos 2000. Essa estética manifesta a tentativa de fuga para a euforia, o experimentalismo e o otimismo de uma virada de milênio percebida como despreocupada e com foco na cultura pop.
Estética Y2K – Foto: Destiny’s Child/Reprodução

Luxo e hierarquia social 

Esses microestilos refletem a intensa pressão por status e distinção social que é amplificada pelas redes. Elas traduzem hierarquias de classe em códigos visuais prontos para consumo. Nesta categoria, a estética deixa de ser apenas “bonita” e passa a ser um marcador de classe. 

São exemplos dessa categoria as estéticas quiet luxury, old money e clean girl. 

  • Quiet Luxury: Essa estética é uma reação ao excesso e a personificação do medo do oversharing. É a aversão aos logotipos óbvios. Reflete uma tentativa de sinalizar riqueza através da qualidade discreta e do corte impecável. No entanto, é acessível apenas a quem conhece o código. É uma resposta à necessidade de exibir status enquanto simula discrição rejeitando a ostentação bruta.
Estética Quiet Luxury – Foto: Angelina Mkrtchan/Reprodução/Instagram
  • Old Money: Representa a idealização da riqueza estabelecida e o classismo. Não reflete apenas a riqueza; é a busca pela legitimidade social. Reflete a ansiedade sobre a instabilidade da riqueza digital. As peças refletem o desejo de incorporar a elegância e a atemporalidade das classes aristocráticas, emulando o visual de um herdeiro.
Estética Old Money – Foto: Natalie Thanou/Reprodução/Instagram
  • Clean Girl: Apresenta o desejo da otimização extrema do eu e a perfeição “natural”. Reflete a obsessão pela produtividade, saúde e autocuidado. Esse estilo, muitas vezes minimalista, é criticado por ser profundamente excludente, pois pressupõe tempo, dinheiro e recursos para manter uma aparência de “saúde perfeita” e limpeza impecável.
Estética Clean Girl – Foto: Hailey Bieber/Reprodução/Instagram

Performance e confronto 

Essa categoria opera em uma camada de metalinguagem, pois reflete a consciência sobre a própria artificialidade da internet, mas ainda assim participa ativamente dela. Enquanto as estéticas de “Fuga Nostálgica” tentam ignorar o presente, as dessa categoria encaram a artificialidade das redes de frente, usando a ironia, o exagero ou o “feio” como ferramentas de subversão.  

São exemplos dessa categoria as estéticas Avant Basic, Indie Sleaze e Lazy Luxury. 

  • Avant Basic: É a performance da própria bolha. É uma estética irônica que abraça o fato de que tudo o que usamos é “comida para o algoritmo”. Ela não foge do consumo; ela o exagera tanto que revela a sua própria artificialidade. 
Estética Avant Basic – Foto: Chelsea Getting Dressed/Reprodução/Instagram
  • Indie Sleaze: Reação ao “Clean Girl” e ao perfeccionismo. É uma celebração do caos, do hedonismo e da imperfeição. Confronta a estética “limpa” e ultra-curada, valorizando o que parece “sujo” ou não editado. 
Estética Indie Sleaze – Foto: Gabbriette/Reprodução/Instagram
  • Lazy Luxury: Se o Quiet Luxury de 2023 exigia uma coordenação impecável e milimétrica, o Lazy Luxury é o flex definitivo de 2025/2026. Ele sinaliza que você é tão rico e influente que não precisa mais tentar. Caracterizado por roupas oversized, cabelos propositalmente “desarrumados” e uma aparência de quem acabou de acordar em um resort cinco estrelas. Essa aesthetic tem o propósito de diferenciar quem está na “corrida dos ratos” de quem já venceu. É o status do conforto absoluto
Estética Lazy Luxury – Foto: Anouk Yve/Reprodução/Instagram

Microestilos e o paradoxo da individualidade 

Os microestilos digitais revelam uma profunda transformação no papel da moda. Antes um reflexo duradouro da cultura, e agora uma ferramenta de gestão da identidade na esfera digital. O que a moda fazia lentamente em décadas, os microestilos fazem rapidamente em semanas. Isso acaba expondo algumas realidades cruciais sobre o comportamento hiperconectado.

Uma das discussões mais ricas e debatidas desse aspecto é o paradoxo da individualidade. Se por um lado as aesthetics proporcionam estilos únicos e nichados como forma de expressão, a sua obsolescência rápida e mercantilização acaba por criar um tipo de individualismo padronizado. Além disso, se para ser estiloso basta copiar uma aesthetic, que lugar sobraria para o gosto pessoal e autenticidade verdadeira?

Embora os microestilos prometam singularidade e autoexpressão, eles operam em um sistema que favorece a repetição e a conformidade. As plataformas digitais e as marcas não promovem a diferença radical, mas sim a diferença comercializável. O algoritmo do TikTok, por exemplo, é extremamente eficiente em agrupar pessoas com base em gostos semelhantes. Quando você adota um microestilo, você é recompensado com mais conteúdo daquele nicho e mais validação social. Isso cria uma bolha estética onde a repetição do código (roupas, poses, filtros, produtos) é o caminho mais rápido para o engajamento e a visibilidade.

Ao adotar uma aesthetic, o indivíduo cai numa armadilha sutil: o que parece ser um ato de individualidade é, na verdade, a escolha de um uniforme altamente específico. Ele expressa sua singularidade ao escolher qual uniforme usar mas, uma vez escolhido, ele se uniformiza com todos os outros que escolheram o mesmo código.

Gilles Lipovetsky e outros críticos do hiperconsumo apontariam que essa uniformização não é nova, mas sim a forma como o mercado de massa opera na era digital. As microtrends são rapidamente traduzidas em produtos de fast fashion. Uma vez que um código estético se torna viral, ele é produzido em massa e distribuído globalmente.

O que parecia ser uma descoberta estética individual rapidamente se torna um produto de prateleira. Ele fica disponível para milhões, levando à saturação e à uniformização global. Essa uniformização seria resultado da colisão entre o desejo de ser único e o imperativo de ser consumível e visível. O indivíduo escolhe a sua diferença, mas essa diferença é pré-fabricada.

Microestilos como um sintoma cultural

Os microestilos e as estéticas digitais não são apenas tendências de moda, eles são sintomas culturais profundos que convidam a reflexões cruciais sobre como estamos vivendo, nos relacionando e construindo identidade na era da hiperconectividade.

Em primeira instância o fenômeno dos microestilos revelam sobre nós como sociedade uma intensa ansiedade identitária e uma profunda necessidade de pertencimento. É preciso refletir sobre por que as fontes de identidade mais tradicionais (trabalho, religião, política) estão tão enfraquecidas que a estética se torna o refúgio primário.

Vale ressaltar também que os microestilos são um lembrete vívido de que não somos mais consumidores autônomos, mas sim produtos de um ciclo ditado pela tecnologia. Os algoritmos têm determinado o que é belo, o que é cool, o que é over e até quem nós somos. Estamos perdendo ou abrindo mão do controle sobre a nossa própria narrativa?

Em última análise, os microestilos são um convite para olhar além da tela e refletir sobre a qualidade do nosso pertencimento, a sustentabilidade do nosso consumo e a autonomia de nossas escolhas em uma sociedade dominada por algoritmos e pela necessidade de likes.

A grande questão é: Como podemos reintroduzir a escolha ativa e a curadoria pessoal em um sistema que nos treina para sermos apenas bons replicadores de códigos?

E, para ficar por dentro das novidades sobre conteúdos do mundo da moda, não deixe de acompanhar o Fashionlismo!  

Escrito por Lorena Freire I Editado por Ana Carolina Gomes 

Lorena Freire é jornalista e apaixonada por moda. Acredita que moda é mais do que tendência: é linguagem, identidade e comportamento. Hoje, compartilha seu olhar crítico e bem-humorado sobre o universo fashion enquanto constrói sua trajetória no jornalismo de moda.

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