“Parashok” da KEN-GÁ: A Moda Como Manifesto Artístico

O desfile da KEN-GÁ com a coleção Parashok não se limita a apresentar looks; ele impõe uma experiência visual e política que desafia a complacência da moda contemporânea. Edgy, chocante e intensamente sensual. Dessa forma, o vestuário explora uma paleta de materiais que vai do látex ao tule, passando por feltros e pelúcia, uma combinação que dialoga entre o agressivo e o afetuoso, o rígido e o macio. As cores vibram, especialmente o preto, o vermelho e o amarelo, pontuados pela emblemática estampa da bandeira do Brasil, trazendo um grito visual que reverbera para além.
Os acessórios não ficam atrás em teatralidade e tamanho. Botas acima do joelho, luvas de ópera gigantes, óculos de mergulho extremamente ousados e babados que parecem desafiar as proporções comuns. São elementos que transformam o corpo em armadura, escudo e grito de resistência. Parashok não é apenas beachwear, mas uma declaração de sobrevivência e vanguarda, que emerge da interseção entre a moda de rua e a poesia do afeto.
Moda como grito, armadura e afeto



A coleção afirma sua identidade política com elegância e crueza. O preto não é ausência ou luto, é presença, uma escolha consciente que transcende a moda passageira e se firma como ruptura e recusa. Inspirada em mulheres que, por amarem outras mulheres, tiveram que aprender a se proteger com antecedência. Assim, a KEN-GÁ entrega um guarda-roupa que não abre mão da ternura mesmo sob a armadura da sobrevivência.
No cerne de Parashok está a inovação narrativa. Mais que técnica, é um novo código visual onde proteção e desejo coexistem, rejeitando qualquer concessão à neutralidade confortável. Os corpos que vestem essas peças marcham e dançam, exigindo ser vistos sob seus próprios termos, criando tensão e fricção que se tornam potência.
A trilha sonora do desfile complementa essa proposta. Longe de ser mera ambientação, ela funciona como um pulsar que amplifica a força silenciosa e o gesto firme da coleção. Além disso, é um respiro profundo que antecede o grito, somando-se ao manifesto visual e tornando a apresentação um ato completo e contundente.
Parashok é, enfim, um grito de afirmação e visibilidade num Brasil que insiste em tentar apagar tantas existências. Vestir-se com orgulho, aqui, não é apenas escolha estética, mas ato revolucionário e vanguardista, uma transformação do cotidiano em passarela, do corpo em manifesto, da roupa em escudo e celebração.

Escrito por: Gilson Tavares | Editado por: Flavia Cavalcante